sábado, 9 de abril de 2011

O MUNDO DE SOFIA

Esta obra se transformou rapidamente em um clássico da história da filosofia, talvez justamente por mesclar ficção e dados históricos, tornando acessíveis ao leitor comum os meandros mais complexos da reflexão filosófica. Como se sabe, a escolha do nome da personagem não é acidental, visto que a palavra Sofia em grego pode ser traduzida por sabedoria e compõem em parte, a palavra Filosofia.

Neste romance filosófico o leitor encontra uma história dentro da outra, que se desenrolam paralelamente e são igualmente protagonizadas por duas garotas que estão prestes a completar 15 anos, Sofia Amundsen e Hilde Moller Knag. Tudo começa quando Sofia passa a receber cartas misteriosas, de um pretenso professor de filosofia, Alberto Knox, que assume a missão de lhe iniciar nos caminhos percorridos pela Filosofia ocidental desde seu nascimento até os dias atuais.

Este contato se dá inicialmente através de cartas e, mais tarde, em encontros inusitados. O mestre Alberto se vale de todos os recursos possíveis para tornar límpidas as lições por ele ministradas, traduzindo de forma singela os pensamentos mais densos e as teorias mais herméticas.

Assim ele percorre desde a pré-filosofia, vivenciada pela Humanidade em seu estágio mítico, até o existencialismo e as diversas correntes filosóficas atuais, passando pela imprescindível filosofia grega, pelos filósofos da era medieval e do Renascimento, pelo surgimento dos racionalistas e dos empiristas, atravessando igualmente o pensamento filosófico alemão – abordando aqui especialmente Kant, os românticos, Hegel e Marx -, chegando à teoria da evolução de Darwin, à Psicanálise de Freud, até aterrissar no mundo contemporâneo.

A história paralela é introduzida em O Mundo de Sofia através dos postais misteriosos que a protagonista recebe, enviados do Líbano por um enigmático Major, Albert Knag, pai de Hilde, para sua filha, através de Sofia. A garota fica aturdida desde o início, sem compreender porque recebe estes cartões no lugar da verdadeira destinatária. Seus questionamentos entrelaçam-se com os conhecimentos que vai adquirindo em seu curso de Filosofia, o qual lhe permite ir, gradualmente, desvendando este mistério.

De uma forma genial, o autor contrapõe às estritas leis naturais da Filosofia, alicerçadas na realidade concreta, a aventura fantástica vivenciada por Sofia e seu professor, quase como se esboçasse uma relação dialética entre imaginação e realidade, Eros e Logos. É fascinante perceber como, pouco a pouco, as dimensões paralelas se entrecruzam e interagem, às vezes de forma bem sutil, outras mais explicitamente.

Por esses dados, logo se vê que o livro foi escrito para aqueles que adolescem. O autor não tinha idéia de que seu livro, projetado inicialmente para um público local e restrito, fosse fazer tanto sucesso. Em parte pela sua história bonita e digerível, em parte pela demanda do grande público em saber filosofia, o livro se tornou um best-seller, atendendo não somente aos jovens, mas também aos profissionais de outras áreas que não a filosofia.

Sofia começa a receber uma estranha correspondência. Trata-se de um curso de filosofia, disposto em ordem cronológica, que após uma introdução, começa a tratar das origens da filosofia, na Grécia, com o conjunto de pensadores conhecidos como "Pré-Socráticos". O autor do curso se chama Alberto Knox. Durante essa iniciação do aprendizado, Sofia começa a entrar em conflito com seus próprios valores. Ela chega mesmo a contestar a visão da mãe acerca de seus problemas, reividicando uma visão mais abrangente, mais investigativa. O curso vem se somar ao ritual de passagem de Sofia, do mundo infantil para o mundo adulto. Afinal, é com 15 anos que as meninas debutam.

Nestes escritos que formam o curso e que tanto impressionam a personagem estão presentes os resumos clássicos dos tópicos e dos conceitos que remetem ao nome de um autor. Nisto não difere muito das Histórias e Manuais da Filosofia tradicionais, com a diferença que o romance procura condensar esta história em cerca de quatrocentas páginas, muitas das quais dedicadas não ao curso, mas ao enredo do romance. Ao curso de filosofia, se misturam também elementos e analogias literárias e culturais, como referências a chapeuzinho vermelho e uma defesa do papel da ONU em questões mundiais.

O mestre de Sofia, Alberto Knox, é um homem misterioso, que faz questão de separar bem aquela vivência que está proporcionando a Sofia da vivência cotidiana da jovem. Tal artíficio enfatiza a idéia de que a entrada no mundo da filosofia se dá gradualmente, através de um mestre, e muitas vezes somos obrigados a largar nossos preconceitos e idéias formadas para entrar na fascinante e misteriosa arena de idéias que é a tradição filosófica carrega.

Aliás, muitas vezes os filósofos escreveram somente para outros filósofos, desprezando a opinião do vulgo, que não teria as condições ou a posse do arsenal teórico para compreender seus escritos. Foi assim com Espinosa em seu tratado filosófico político, ou muitos outros. No entanto, a filosofia sabe que não pode travar um solilóquio, e se ressente desta falta de contato. Com isso, os filósofos encontraram maneiras de estreitar seu contato com o mundo real e com a sociedade. Foi assim com as aulas de retórica dirigidas a público pelos aristótelicos do Liceu, ou com a crítica moderna à escolástica medieval, ou com o filósofo agitador e propagador de idéias do iluminismo, ou com Hume e Kant escrevendo versões simplificadas de seus tratados para serem mais compreensíveis, ou mesmo com Marx escrevendo o seu manifesto comunista ou com Sartre defendendo a figura do intelectual engajado. Mas prossigamos.

O pai de Sofia trabalha na ONU, mas está viajando, numa missão. Ele também escreve algumas cartas para a moça. Há um mistério sobre o que será o presente dela. Quando Sofia encontra pessoalmente o seu Mestre Knox, coisas estranhas começam a acontecer, até que durante a explanação de Knox sobre Berkeley, o autor faz um paralelo entre o idealismo empirista de Berkeley que remete a Deus, a realidade manipulada que dá indícios no livro. Alguns desses sinais são as incongruências e descontinuidades que aparecem na vida da personagem, como o computador de Knox que parece adquirir vontade própria.

O autor usa, é claro, aquele velho recurso do livro dentro do livro, como se observa em outros lugares, como "A História sem fim", de Michel Ende. Sofia descobre estar ela própria dentro de livro, e o autor do livro é seu pai, virtualmente um Deus desse mundo fechado. Mas o que aparece é que o próprio pai dela é um personagem. O desfecho do livro então, é meio inseguro, cambaleando entre um surrealismo insólito e o tradicional fim a la Alice no país das Maravilhas. Mas você terá de ler para saber.

Gaarder também convida o leitor a vivenciar os cotidianos de Sofia e de Hilde, os quais apresentam entre si mais semelhanças que diferenças. Ao mesmo tempo, a rotina das jovens vai sendo transformada à medida que uma vai tomando conhecimento da existência da outra. A partir deste momento, tudo pode acontecer, tudo se torna possível.

Aqui está um livro excelente, que deveria ser leitura obrigatória para todos os estudantes. É leve, interessante, prende o leitor, a despeito de suas 560 páginas. No entanto é preciso frisar que o assunto é FILOSOFIA, então se você não é lá muito dado a assimilar esse tipo de conhecimento, então certamente o livro lhe parecerá chato. Por outro lado, se você é curioso e gosta de aprender sobre a origem das coisas – nesse caso, a origem do pensamento ocidental – então essa é uma ótima opção para se iniciar no mundo da filosofia.

Com níveis bem dosados de simplicidade e profundidade, o livro intercala uma trama intrigante com lições muito ricas sobre as diferentes épocas da filosofia ocidental, dos pré-socráticos aos pós-modernos. Ao longo da trama os maiores filósofos ocidentais são descritos e suas idéias explanadas, de forma leve e fácil de assimilar.

O final surpreende com umas “viagens” do autor, mas é bem autêntico, envolvente e questionador, ficando com aquele gostinho de quero mais. Algo que é raro quando se tenta romancear algo que é por natureza analítico e desprovido de emoções.


ANÁLISE

O autor, através desse romance, que tem como personagem central uma adolescente comum, sem outras dúvidas que não as próprias de sua idade e época, descreve toda a trajetória do Homem em busca de explicações para sua existência. Ele utiliza como recurso, na trama, um professor de Filosofia, um major e sua filha.

No decorrer do romance ele faz uma explanação, em forma de diálogo entre o professor de Filosofia e a adolescente, sobre a História da Filosofia, assim como sobre todas as transformações sofridas pelo ser humano no decorrer dos tempos.
Sofia, a adolescente em questão, está prestes a completar quinze anos e se depara com questões relativas à origem do mundo, das relações entre as pessoas e de quanto sua e, portanto, nossa existência é efêmera.

As indagações que lhe são feitas a levam a se perceber como um ser histórico. Sua existência depende de sua ação na realidade em conjunto com as atitudes alheias, isto é, a partir da interação com o mundo, já que ela, em contato com as questões filosóficas, descobre que os fatos da vida, a natureza, devem ser admirados diariamente, a todo instante, pois o mundo está em constante transformação; não devemos, pois, nos habituar ao mundo. Devemos, sim, ser como crianças que sempre se impressionam, se admiram com o que vêem, pois estão sempre descobrindo coisas novas. Devemos estar no mundo em eterno estado de vigília, sempre alertas a novos fatos, e não como se estivéssemos dormindo enquanto a vida passa. A vida é um mistério a ser desvendado a todo instante.

Sofia começa a ler e, mais adiante, a dialogar com Alberto, seu professor de Filosofia, sobre todas as posturas filosóficas existentes na humanidade. Aprende que os mitos, superstições, explicações sobrenaturais são formas fáceis para explicar os acontecimentos da vida incompreensíveis ao ser humano. Mas estas acabam por mascarar a realidade, pois o Homem, ao acreditar em explicações tão simplistas e tão aquém de sua existência, acaba por se afastar da vida, vivendo a realidade como mero espectador. Assim, se as coisas não vão bem, não dão certo, atribuindo a causa a mitos, superstições, sobrenatural, o ser humano se exime de culpa frente aos problemas que o cercam. Entretanto, o autor, através de um questionamento permeado por um constante diálogo com Sofia, nos mostra que o que acontece no mundo é fruto de nossas atitudes. A história é feita pelos Homens, através de suas reflexões, diálogos e ações. O autor vai mostrando, através da História da Filosofia, que para interferirmos em nossa realidade devemos estar sempre indagando sobre os fatos, buscando nossas raízes históricas, pois a vida não é uma fatalidade, e sim algo construído pelos seres humanos em sua interação com seus semelhantes e através do tempo, sempre de forma contínua, nunca estagnada.

Dentre os filósofos estudados, é interessante ver Aristóteles e suas formas de felicidade, vistas como a realização plena do Homem enquanto tal; podemos observar que há muito existe a preocupação de que o Homem seja um cidadão livre, consciente e responsável por sua existência.

É importante citar o Oriente em suas buscas filosóficas. Assim, como disse Swami Vivekananda, “... é ateu aquele que não acredita em si mesmo.” (p. 155).

A “Lei da Inércia”, de Newton, pode muito bem ser aplicada à nossa vida, pois sempre existem fatos que nos obrigam a atuar em nossa realidade; entretanto, existem pessoas que permanecem inertes, indiferentes à realidade que as cerca, como se mudar ou não a maneira de pensar, de agir, de ver o mundo, em nada pudesse modificar o curso da história, o estado das coisas.

Nos dias de hoje, prega-se a necessidade de que todos tenham acesso à informação para que entendam a realidade e nela possam atuar de forma consciente, idéia que, se voltarmos na história, remonta a Lutero.

Ao falar do Barroco, o autor procura mostrar o quanto os ornamentos mascaram a realidade; nosso Carnaval, cheio de riquezas e pompas, é um exemplo típico de como o Estado é capaz de dominar os oprimidos: tal é a grandeza do luxo e da riqueza, que por quatro dias ou mais esquecemos como nossa realidade é cruel, como nossa sociedade é desigual e, assim, nos acomodamos a ela.

Ao mostrar as diversas correntes filosóficas, o autor nos faz perceber que, ao refletirmos, o fazemos a partir do que vemos e vivenciamos em nossa época e, assim, nossa reflexão não poderá ser eterna. A vida é uma somatória de momentos, e desta forma, o Homem se modifica a todo instante.

O autor também questiona nossa concepção de existência ao falar do niilismo, onde só existimos porque acreditamos neste fato, e também ao citar Sartre e seu existencialismo, quando afirma que “a existência precede a essência”, “existência não significa simplesmente estar vivo” (p. 486) e, assim, o ser humano, ao tomar consciência de sua existência, também se percebe responsável por ela.

Personagens de contos de fada surgem na vida de Sofia, assim como Sofia e Alberto surgem na vida de outros personagens. Através de Alberto, o autor sugere que “a filosofia é o oposto da magia” (p. 361); todavia, penso que filosofia é magia, a magia da capacidade de o ser humano se voltar para dentro de si e confrontar-se com o mundo em busca de explicações para sua existência.

Somos personagens, assim como Chapeuzinho Vermelho e muitos outros. Contudo, podemos escolher entre sermos meros espectadores da história que está sendo escrita ou sermos agentes desta história, isto é, escrevê-la em parceria com outros seres.

Somos capazes de tudo; de transformar o mundo; fazer dele um sonho que nunca se realizará, um pesadelo que só acabará com a morte – se quisermos ser meros fantoches, personagens criados por autores não bem intencionados, ou então escrever nossa própria história, onde nós seremos os personagens principais.
Não podemos deixar que o “major”, aquele que detém o poder de nossas vidas, escreva nosso destino, pois ele poderá dar cabo de nossa existência quando bem lhe convier.

De qualquer forma, “O Mundo de Sofia” é um livro indicado para adolescentes ou pessoas que nunca tiveram um contato com filosofia e querem iniciar esse contato de forma descompromissada, mas enriquecedora. Para quem tem conhecimentos avançados em filosofia, talvez não acrescente nada, valendo a leitura apenas para saber do que se trata e conhecer um bom modo de trazer a filosofia ao alcance das pessoas comuns.

Finalizando, “O Mundo de Sofia” é um romance fantástico do qual não queremos nos separar. Ele retrata com maestria a nossa existência. É livro de cabeceira, para ser pesquisado constantemente.



Sobre o Autor
Jostein Gaarder nasceu em 1952, na Noruega. Estudou filosofia, teologia e literatura, e foi professor durante dez anos. Estreou como escritor em 1986, tornando-se logo um dos autores de maior destaque em seu país.

Sua prática literária teve início no ano de 1986, quando passou a escrever livros infanto-juvenis. Mas o sucesso veio mesmo a partir da publicação de O Mundo de Sofia, em 1991, quando ganhou projeção internacional, já traduzido para 52 línguas um sucesso internacional que já sobrevive a quase três décadas.

Atualmente pode-se encontrar no Brasil uma versão cinematográfica desta obra em DVD, lançado em 2008.


Fontes:
Jostein Gaarder. O Mundo de Sofia. Romance da História da Filosofia. Cia das Letras, São Paulo, 1995

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