terça-feira, 15 de maio de 2012

ESCRITORES DA LIBERDADE - RESENHA CRÍTICA


"Escritores da Liberdade" é um filme baseado numa história real, que trata de realizações face à adversidade. Em 1994, na sala 203 de uma escola em Long Beach, Califórnia, uma professora de literatura chamada Erin Gruwell, enfrentou sua primeira classe de alunos, rotulados pela administração do colégio como adolescentes "em risco" ou "problemáticos". Este drama racial possui tantos estereótipos quanto o cinema americano pode proporcionar. Na maioria dos casos, isso seria considerado algo ruim, visto que essa característica tem como ponto negativo enfraquecer personagens e torná-los facilmente esquecíveis tão logo o filme termine. A película, porém, trata justamente da discussão do quão prejudicial é tratar pessoas como meros estereótipos. E faz isso com habilidade e, infelizmente, também com um pouco de ingenuidade. Mas falemos sobre os pontos negativos mais tarde, pois o filme é muito bom.



Não são incomuns pessoas que vêem outras nas ruas e julgam-nas pela aparência, automaticamente. Às vezes sem malícia, pois faz parte da [má] formação educacional da pessoa. “Loira burra”, “pobre ignorante”. Estas são algumas dessas pré-concepções. Escritores da Liberdade, porém, trata de grupos raciais que se colidem, por terem que viver no mesmo ambiente: negros, hispânicos e orientais, todos estudando no mesmo colégio. Fazem parte de gangues e vivem em um lugar muito violento. Não dão importância ao estudo e sabem que a expectativa de vida é baixa para muitos deles. Um velho quadro, já muito explorado no cinema norte-americano, o que pode trazer desconfiança a muitos espectadores. O que, afinal, Escritores da Liberdade tem a oferecer de novo?



Não muito, realmente. O filme ingênuo e muito óbvio, vários conflitos são completamente previsíveis. Esse tipo de personagem da professora, idealista e dedicada, já foi imensamente explorado em outros filmes de mesmo tema, como Ao Mestre Com Carinho, O Clube do Imperador e Sociedade dos Poetas Mortos. Apesar dos clichês, o filme conta com boas interpretações e sua mensagem é muito bela para ser ignorada.



A atriz que interpreta a professora consegue demonstrar a complexidade da situação da professora, que passa por altos e baixos na vida profissional e familiar. Fica bem fácil torcer pelo seu sucesso, e o fato de a personagem ser baseada em alguém real (no finalzinho há uma foto da Erin real, junto de uma turma real) torna os acontecimentos mais interessantes e intensos; desta forma, a falta de originalidade de sua personagem não é exatamente um ponto negativo.



Felizmente, a boa qualidade do elenco não pára com Swank (interprete da professora). Os alunos, apesar de vivenciarem tipos conhecidos, demonstrar saber lidar com emoções variadas e, fora um ou outro problema com alguns personagens (Eva, por exemplo, não possui justificativa coerente para ter ficado “boa” tão rapidamente), todo o elenco leva o filme com competência. Há, claro, personagens maus, como o racista professor sênior ou a diretora Margaret, mas o diretor e roteirista do filme optou por não dar muita notoriedade a eles e centrar a história sobretudo nos alunos e na professora, o que foi fundamental para que o ritmo do filme permanecesse agradável.



Uma cena que merece destaque, ocorre dá quando uma caricatura racial de um dos estudantes afro-americano circula a sala de aula, a professora interceptou irritadamente o desenho e comparou-o às caricaturas dos judeus, feitas por nazistas durante o holocausto. Os estudantes responderam de forma confusa à sua comparação o que chocou a professora ao descobrir que muitos de seus alunos nunca tinham ouvido sobre holocausto. Entretanto, quando perguntou quantos em sua classe tinham sido alvos de disparos, quase todos levantaram as mãos. Isto deixou-a chocada, porém inspirada a não desistir dos alunos.  A professora pergunta a seus alunos se estes conhecem o que é "Alchwitz", o campo de concentração; todos ignoram o que seja ou tenha sido, então ela explica-lhes o que é e sobre o horror de uma guerra e as conseqüências que dela se podia ter. Leva-os a um museu da 2º Guerra Mundial, onde estes podem ver através de fotos, as imagens da atrocidade; atinge-lhes o cerne da sensibilidade; que guerras não levam a nada a não ser à morte, e neste ponto o filme mostra como utilizar estereótipos em favor de uma boa história.



Percebe igualmente a professora que mais do que tentar estabelecer o resultado pretendido através de coerção, é preciso se colocar no mesmo nível de pensamento e entendimento daquela realidade, permitindo que aqueles alunos sejam ouvidos e possam se expressar.



Assim, pede que os mesmos escrevam sobre o que quiser em um caderno individual que será posto no armário, para que ela leia ao final de cada aula. Aos poucos seus alunos vão passando para o papel, suas experiências de vida, seus sonhos, medos e anseios, expondo seus pensamentos antes nunca falados.


Transforma-os gradativamente, em seres pensantes, questionadores, sonhadores e com esperança. Mostra o quanto é possível a transformação através da educação e do respeito e entendimento ao outro.



Promovendo uma filosofia educacional que avalie e promova a diversidade, transformou a vida dos seus alunos. Incentivou-os a reavaliar a opinião rígida sobre o outro, reconsiderar decisões diárias, e ao repensar seus futuros. Com o apoio constante da professora, seus alunos quebram estereótipos para transformarem-se em pessoas críticas, estudantes universitários de aspiração, e cidadãos para a mudança. Nomearam-se a si mesmos de "os escritores liberdade" – em homenagem aos ativistas dos direitos civis os "Cavaleiros da Liberdade" (Freedom Riders), jovens negros e brancos, intelectuais, artistas e religiosos, que partiam do norte dos Estados Unidos na década de 1960 em caravanas em direção ao Sul, para pressionar as autoridades locais a pôr fim na segregação.


No momento em que nomearam-se "escritores da liberdade" os estudantes da sala 203 converteram-se de um grupo de estudantes apáticos para um grupo de estudantes motivados, pensantes e responsáveis por tomar suas próprias decisões. De acordo com determinada concepção de liberdade tornaram-se indivíduos livres.


Em Filosofia liberdade possui "três significados fundamentais”, correspondentes a três concepções que se sobrepuseram ao longo de sua história e que podem ser caracterizadas da seguinte maneira:

1ª Liberdade como autodeterminação ou autocausalidade, segundo a qual a Liberdade é a ausência de condições e de limites;

2ª Liberdade como necessidade, que se baseia no mesmo conceito da precedente, a autodeterminação, mas atribuindo-a à totalidade a que o homem pertence (Mundo, Substância, Estado);

3ª Liberdade como possibilidade ou escolha, segundo a qual a liberdade é condicionada (...) As disputas metafísicas, morais, políticas, econômicas, etc., em torno da Liberdade são dominadas pelos três conceitos em questão, aos quais, portanto, podem ser remetidas as formas específicas de Liberdade sobre as quais essas disputas versam.



Embora bastante previsível em muitos aspectos, Escritores da Liberdade é também uma pequena e agradável surpresa. Espectadores que se emocionam com facilidade, e que gostam disso, vão encontrar neste filme um agradável prazer. É um trabalho altamente manipulativo, mas demonstra com qualidade que, com grande esforço e muita coragem, é possível sim mudar a sociedade, nem que seja uma pessoa por vez. Ou uma turma de alunos por vez. Piegas, é verdade, mas verdadeiro. Divertido e emocionante e, portanto, recomendável.

2 comentários:

  1. Olá, me chamo Daniele e possuo um blog chamado "Para pessoas inteligentes", gostaria de repostar algumas de suas resenhas, tenho permissão para fazer?

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    1. Olá Daniele, Fique às ordens para usar este ou qualquer outro texto que julgue interessante....
      Um grande abraço

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