Foi a civilização que formou o maior Império que o Mundo já viu.
A História da Civilização Romana tem inicio na Península Itálica.
Por volta de 2000 a.C esta região foi invadida pelos italiotas (Sabinos, Latinos e Volscos). Eles misturaram-se com os povos primitivos locais e passaram a povoar o centro da região.
Mais tarde os Etruscos fixaram-se ao norte e depois de algum tempo migraram para o sul.
Os italiotas buscando melhor se defenderem dos ataques dos etruscos, construíram uma grande fortificação, mesmo assim os invasores conseguiram dominar os italiotas.
Por volta do seculo VIII a.C. a fortaleza foi transformada num núcleo populacional que, com o passar do tempo se transformaria numa grande cidade que ficaria historicamente conhecida como Roma.
O Poeta Romano Virgilio, conta "A Lenda da Fundação de Roma" em sua Obra, Enéida.
A História de Roma pode ser dividida em 3 períodos.
Monarquia (753 a.C - 509 a.C)
No inicio da monarquia Roma foi governada por Reis de origem etruscas. Os gregos tinham grande influencia sobre a realeza. Na monarquia a sociedade estava dividida em:
Patrícios - Os grandes proprietários de terras e de gado. Somente eles poderiam ocupar cargos politico, militar e religioso.
Plebeus - homens livres mas sem direitos políticos, eram maioria em Roma.
Clientes - plebeus que prestavam serviços a um patrício em troca de dinheiro ou de terra.
Escravos - pessoas escravizadas por dividas ou oriundas dos povos conquistados pelos romanos.
Os Reis de Roma eram escolhidos pela Assembleia Curial, grupo de patrícios encarregados de escolher o rei de Roma e de criar leis.
O Senado também conhecido como Conselho dos Anciãos eram composto também por patrícios. Eles tinham a tarefa de aprovar ou não as leis aprovadas pelos Reis.
Em 509 a. C um choque de interesses entre o Rei e a Aristocracia deu fim a monarquia. Tarquínio, ultimo monarca de Roma, foi deposto pela Senado.
A Republica (509 a.C - 27 a.C)
A Republica Romana foi marcada por agitações sociais. Ao mesmo tempo em que Roma crescia, aumentava as diferenças sócias entre patrícios e plebeus.
O Senado deu um Golpe de Estado e criou uma Republica Oligárquica que atendia somente aos desejos dos patrícios. Os plebeus descontentes com a situação social em que viviam rebelaram-se e exigiram reformas politicas. Consciente de sua importância na sociedade os plebeus passaram a exigir os seus direitos políticos.
Como os patrícios dependiam dos plebeus nas atividades econômicas e militares, tiveram que atender aos pedidos. Foram criadas leis e instituições que atendiam os desejos dos plebeus. Dentre estas instituições destaca-se:
Tribunos da Plebe - Conselho formado por plebeus que tinham o trabalho de vetar as decisões do Senado que se mostrasse ameaçadora aos interesses da Plebe.
A Lei das Doze Tábuas - leis escritas que valiam tanto para os plebeus quanto para os patrícios.
Os plebeus também conquistaram o direito de se candidatar aos cargos de Magistrados, antes formado apenas por patrícios. O Direito foi a maior contribuição que os romanos deixaram de herança para o Mundo Ocidental.
Na República o poder passou a ser exercido pelos magistrados que exerciam diversos cargos. Os principais eram:
Cônsules - Magistrados encarregados de comandar o Exército Romano.
Pretores - Magistrados encarregadas de fazer a justiça.
Censores - Responsáveis pelo censo populacional.
Questores - Encarregados pela administração das finanças.
Edil - Responsável pela ordem publica e abastecimento das cidades.
Senador - Magistrado pertencente ao Senado Romano.
Os Senadores eram responsáveis por um grande numero de decisões politicas dentre as mais importantes destaca-se a nomeação dos Cônsules.
Foi no período republicano em que Roma lançou-se em guerras de conquistas. A mais difícil delas foi a guerra contra Cartago e suas províncias, as chamadas "Guerras Púnicas". Com a conquista do Mediterrâneo antes controlado pelos fenícios de Cartago, os romanos continuaram a lutar com outros povos. Valendo-se de exércitos poderosos, os romanos conquistaram terras que antes pertenciam aos gregos, egípcios, mesopotâmicos e Persas.
Os Generais Romanos, maiores liderança do Exército passaram a interferir nas decisões politicas da Republica. Em 60 a.C o poder foi divido entre os Cônsules Pompeu, Crasso e Júlio César. A divisão do poder entre os 3 generais ficou conhecida como o Primeiro Triunvirato.
Com a morte de Crasso, Pompeu e Júlio César passaram a disputar o Cargo de Cônsul único. Na disputa pelo poder César saiu vitorioso mas anos depois foi assassinado por uma conspiração formada por senadores.
Em 43 a. C., novamente o poder é divido entre 3 Cônsules. Formou-se o Segundo Triunvirato composto por Marco António, Lépido e Otávio. Após afastar Lépido e derrotar Marco Antônio, Otávio tornasse líder supremo de Roma, iniciando assim a fase imperial de Roma.
O Império Romano ( 27 a.C - 476 d.C)
Otávio recebeu o titulo de Augusto a passou a ter total controle sobre as decisões politicas de Roma.
O Senado que antes da formação do Império decidia os rumo da politica, agora exercia o simples papel de conselho imperial para o Imperadores de Roma. Com a morte de Otávio Augusto em 14 d.C sucederam-se 4 dinastias de Imperadores que são:
Dinastia Julius Cláudia (14 - 69)
Desta família vieram os imperadores Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. No reinado desta Dinastia Houve conflitos entre o Senado e os Imperadores.
Dinastia dos Flávios (69 a 96)
Família quer colocou no poder Vespassiano, Tito e dominicano. Com o apoio do Exército a Dinastia Flaviana conseguiu controlar o Senado.
Dinastia dos Antoninos ( 96 a 192)
Nerva, Trajano, Adriano, Antonino, Pio Marco Aurélio e Cômodo foram os imperadores desta dinastia.
Os Antoninos buscaram a reconciliação do Senado com com a figura Imperial. Roma chegou ao seu apogeu com uma expansão territorial nunca antes alcançada por qualquer outra civilização.
Dinastia dos severos (193 - 235)
Teve como imperadores Sétimo Severo, Caracala, Heliogabalo e Severo Alexandre. A Dinastia Severa marca o inicio do Baixo Império Romano onde o império foi afetado por uma crise econômica e pelas invasões de povos bárbaros.
A Religião
No inicio da civilização as crenças etruscas deu inicio a pratica religiosa em Roma. Com o tempo os romanos passaram a adorar as Divindades Gregas que foram rebatizadas como nomes latinos. No período imperial no reinado Otávio Augusto nasceu Jesus Cristo, Fundador da religião Monoteísta do Cristianismo. Com o passar dos séculos a religião foi sendo difundida e aceita por todo o território romano. Em 391 o Cristianismo passou a ser a religião oficial do Império.
A Arte
A Produção artística de Roma inicia-se com a arte etrusca do arco e a abóbada. Com a expansão territorial Roma assimilou em muito a cultura grega e posteriormente a Cultura Helenística.
O Declínio do Império Romano
Em 284 o Imperador Diocleciano procurando melhor defender o império das Invasões Barbaras criou a Tetrarquia. O território romano foi divido em 4 partes, cada uma com governo próprio. Os Hunos, povo guerreiro vindos do Oriente eram os mais temidos todos os povos bárbaros.
Em 395 Teodósio dividiu o Império em duas partes. O Império Romano do Ocidente com capital em Roma e o Império Romano do Oriente com capital em Constantinopla.
A parte ocidental do império seria destruído em 476 por povos germânicos. Odoacro, líder dos Herulos depôs Rômulo Augusto, Ultimo Imperado de Roma e tornou-se rei da Itália. No Ocidente foi formado um grande numero de reinos bárbaros.
O Império Romano do Oriente que passou a ser chamado de Império Bizantino, durou ate 1453, ano em que os Mulçumanos liderados por Maomé II conquistaram a Cidade de Constantinopla.
Referência: Giordani, Mario Curtis. História de Roma. Petropolis, Ed. Vozes, 1965
quinta-feira, 26 de maio de 2011
domingo, 22 de maio de 2011
TRANSFORMAÇÕES DO TRABALHO
Transformações do trabalho e processos de subjetivação
A Nova economia e a economia solidária
Resumo
O mercado de trabalho contemporâneo aprofundou o fosso social que separa a população inserida no mercado daquela que sobrevive de forma precária. A economia solidária surgiu como contraponto à fratura social daí decorrente. Utilizando a abordagem biográfica, discutimos as trajetórias de trabalho de 30 jovens divididos em dois grupos. O primeiro grupo é composto por 15 jovens empregados no setor da nova economia (informática, telecomunicações e Internet) e 5 jovens empregados no setor bancário pós-reestruturação; o segundo grupo é composto por 5 jovens ligados a um projeto de economia solidária e 5 jovens vinculados a um projeto comunitário. As entrevistas dos jovens inseridos no primeiro grupo revelam a adesão ao discurso gerencial e a constituição de uma ética individualista. Para os jovens do segundo grupo, a economia solidária e o associativismo constituem somente uma alternativa ao desemprego. Frente a essa constatação, perguntamos se estes projetos se constituem efetivamente como um contraponto à lógica de adesão ao discurso de gestão contemporâneo.
Palavras-chave: reestruturação produtiva; subjetividade; abordagem biográfica; nova economia; economia solidária
As transformações nas formas de acumulação e nos regimes de regulação no capitalismo se alteraram profundamente nos últimos 30 anos. As competências exigidas para a integração no ciclo produtivo também se modificaram, alterando as possibilidades e as formas de ingresso no mercado de trabalho. Até os anos 1970, a possibilidade do pleno emprego – mesmo que ela nunca tenha se configurado de forma plena no Brasil – exerceu um papel essencial de integração no capitalismo industrial e serviu de via privilegiada de acesso aos direitos sociais. Assim, o acesso aos direitos de forma igualitária estava em relação direta com a objetividade anterior (Castel & Haroche, 2001), ou seja, as condições materiais de existência que moldam as características dos modos de subjetivação em cada contexto histórico. É, portanto, a partir da articulação trabalho/mercado/subjetividade que propomos analisar duas formas de inserção social via trabalho em dois pólos distintos da nova configuração do capitalismo, levando em conta a especificidade da sociedade brasileira.
A partir da aceitação da premissa de que a relação entre subjetividade e trabalho remete à análise da maneira como os sujeitos vivenciam e dão sentido às suas experiências de trabalho (Nardi, Tittoni, & Bernardes, 2002), fica evidente que a interpretação dessa relação nos coloca frente à especificidade
histórica assumida pela relação dos sujeitos com seu trabalho em cada contexto socioeconômico. Assim, a relação entre subjetividade e trabalho muda se analisarmos a relação do cidadão e do escravo com o trabalho na Grécia, do senhor feudal e do servo na Idade Média, do operário da indústria fordista e do jovem analista de sistemas nas empresas ligadas à nova economia no século XXI. É neste sentido que
Deleuze (1986), por exemplo, afirma que as mutações do capitalismo engendram a produção de uma nova subjetividade, visto que cada mutação social implica em uma reconversão subjetiva com suas ambigüidades, assim como com seu potencial de resistência e transformação.
Trata-se de pensar a subjetividade através dos processos e dos modos de subjetivação. Para Fonseca (1995), os modos de subjetivação referem-se ao modo predominante como os sujeitos relacionam-se com a regra e a forma como se vêem obrigados a cumprir e, ao mesmo tempo, se reconhecer como ligados a essa obrigação. Os processos de subjetivação, por sua vez, podem ser compreendidos a partir da análise da maneira como cada indivíduo se relaciona com o regime de verdades próprio a cada período, ou seja, a forma como o conjunto de regras que define cada sociedade é experimentado em cada trajetória de vida.
O trabalhador da modernidade definia-se a partir de um regime de verdades (Foucault, 1994) que determinava uma forma de ser e existir no qual o trabalho constituía-se como elemento central e determinante do código moral que estabelecia as regras de conduta e guiava o julgamento das ações
com relação à estrutura da família, à educação dos filhos, à ação política e determinava a natureza central do laço social.
A indústria representava o setor da economia que guiava os Estados à independência e ao desenvolvimento econômico e social.
Como fruto deste modelo, o período posterior à II Guerra Mundial consolidou na Europa um modelo de Estado Nação e de organização societária baseados no assalariamento da maioria da população e sobre o qual se construiu o aparato institucional que constitui o que Castel (1998) denominou como a propriedade social.
A propriedade social constituiu-se no elemento central do Estado Social e representava o suporte social para o exercício da igualdade de direitos. Este Estado “protetor” garantiu o acesso igualitário aos direitos sociais pela via da oferta de serviços públicos e formas de suporte social tais como a habitação
de baixo custo (ou a ajuda financeira para a locação), sistema de saúde público, creches, asilos, educação pública universal, seguro desemprego; enfim, um conjunto de suportes que podem ser alocados sob a denominação genérica de seguridade social. A construção desse aparato institucional só
foi possível graças à generalização da oferta de trabalho na sua forma emprego. O trabalho representava a garantia moral (do ponto de vista simbólico) e material (do ponto de vista concreto)
do exercício da cidadania plena. Esse modelo, mesmo que nunca tenha sido implantado completamente no terceiro mundo e no Brasil em particular, serviu de modelo para a construção de uma sociedade centrada no trabalho industrial.
O conceito de cidadania regulada definido por Santos (1979) e discutido por Gomes (1982), afirma que a aquisição dos direitos sociais no Brasil esteve associada ao assalariamento e à estratificação profissional. A carteira assinada exercia o papel de um atestado de “moralidade” exemplar.
Outro fator fundamental que estabelece a diferença entre o presente e o passado recente na sociedade brasileira refere-se às transformações da dimensão temporal no planejamento possível das trajetórias de vida. O trabalho na modernidade permitiu o planejamento a longo prazo na construção dos projetos de vida. O trabalho baseado na experiência e na dedicação era a garantia para o acesso aos bens materiais e para a construção de uma vida estruturada e previsível dentro de um código moral claro, mas, ao mesmo tempo, restritivo. O estudo de Colbari (1995) mostra como a dedicação à família e
ao trabalho constituíam-se em características centrais dos processos de subjetivação do homem trabalhador. O fator de identificação principal associava a disciplina do trabalho ao papel de provedor da família. A noção de provedor de família pode ser caracterizada quase como um tipo ideal – no sentido
weberiano – se considerarmos a interpretação de Colbari das trajetórias de vida dos ganhadores do concurso OperárioPadrão do Brasil.
A crítica do código moral restritivo da modernidade foi, de acordo com Boltanski e Chiapello (1999), incorporada de forma instrumentalizada pelo discurso gerencial que emerge a partir dos anos 1980. O novo discurso define o ideal de trabalhador como flexível, competitivo e individualista. Os padrões daquilo que é considerado correto ou incorreto moralmente passam a obedecer a um critério de custo/benefício, abandonando os princípios guias que permitiram conduzir as escolhas de vida no longo prazo (Sennett, 1998).
As transformações do mundo do trabalho, decorrentes da última crise do capitalismo, transformaram a base material e simbólica associada ao trabalho. O esgotamento do modelo fordista-taylorista; a terceira revolução industrial (a associação da informática e das telecomunicações); a globalização; a
criação dos blocos econômicos; o fim da guerra fria; a falência do socialismo real e a crise dos grandes discursos explicativos e totalizantes, entre uma série de outros aspectos, são fatores determinantes do estado de incertezas em que se encontra o mundo e as instituições sociais que serviram de base para a regulação societária e que garantiram uma determinada segurança ontológica (Giddens, 1989) na
modernidade.
Essas mudanças no modelo produtivo se associam à crise da sociedade salarial na Europa e à emergência de uma zona de vulnerabilidade social no seio das sociedades industriais (Castel, 1998).
No Brasil, a destruição do Estado Social em sua fase embrionária – idealizada pela constituição de 1988, mas abortada pela onda liberal dos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso – e o incremento da flexibilização das relações de trabalho relacionam-se à precarização, por um lado, e ao aumento das exigências de qualificação, pelo outro. Estes elementos associados constituem uma nova conjuntura global/local e configuram a posição do Brasil na nova divisão internacional do trabalho,
além de produzir o incremento das desigualdades estruturais da sociedade brasileira.
A partir dessa nova configuração das formas de inserção no mercado de trabalho buscamos investigar neste artigo: por um lado, os trabalhadores da ponta mais avançada do mercado de trabalho atual (a nova economia), ou seja, os jovens (de até 30 anos) inseridos em áreas consideradas como de vanguarda em relação às inovações tecnológicas e organizacionais – informática e Internet e a telecomunicação móvel (celular) e os bancos (por representarem um dos setores que mais sofreu alterações com a reestruturação produtiva) – e, pelo outro, os jovens que não se inseriram no mercado de trabalho formal e que estão vinculados a projetos de economia solidária. É importante esclarecer ao
leitor que o termo jovem é usado aqui de forma ampliada, não se restringindo às categorias do IBGE (até 24 anos).
Uma vez que ao buscarmos construir uma estratégia comparativa de análise e sabendo que o acesso às ocupações da nova economia depende de formação universitária, utilizamos como critério de corte a idade de 30 anos. Além deste critério, e como nos demonstra Petras (1999), as novas exigências do mercado têm ampliado a idade de entrada no mercado de trabalho formal.
A articulação téorico-metodológica se construiu a partir da compreensão do jogo de verdades sobre o trabalho e seus efeitos nos processos de subjetivação. Buscamos nas projeções que os trabalhadores fazem de seu ideal e, em oposição, do não-ideal de suas situações de vida e trabalho, os efeitos dos discursos veiculados sob a forma de saber. Para Foucault (1987), quando alguém fala veiculando um discurso, o que está em questão, quanto à autoria, não é somente a subjetividade de quem fala, mas também o lugar que se ocupa ao falar.
O instrumento de pesquisa que utilizamos consiste em entrevistas aprofundadas que buscaram reconstruir as trajetórias de vida dos trabalhadores. A técnica de pesquisa foi escolhida por ser a mais adaptada para entender como os sujeitos construíram suas vidas a partir da inserção (ou da tentativa de) no mercado de trabalho. Os relatos nos possibilitaram descrever e entender como o trabalho atravessa os processos de subjetivação e como os sujeitos trabalhadores realizam os julgamentos morais que conduzem suas vidas em sociedade e seus engajamentos no laço social.
A utilização do método biográfico nos permite abordar o coletivo pelo individual. Por meio das rajetórias
de vida e da proposição de um dilema ético aos entrevistados, foi possível estabelecer quais parâmetros balizam a reflexão ética construída pelos indivíduos a partir de sua compreensão das normas sociais presentes nos contextos nos quais estão inseridos. A análise da construção das individualidades em interação é possível mediante a abordagem das trajetórias de vida. Trata-se do estudo do espaço ocupado pelo sujeito no contexto social, de uma posição que se constrói não como um dado definitivo, não como uma posição fixa na estrutura social, mas como uma tarefa, ou uma obra, constantemente
em produção. Cabanes (2002) afirma: “Mais precisamente, somente o relato biográfico – récit biographique – permite efetuar a primeira parte do projeto que é a condição para a análise da construção social da relação consigo mesmo”. A utilização da noção de ideal de nós (idéal de nous), proposta pelo autor, e derivada do conceito de ideal de eu, é bastante frutífera na análise das trajetórias de vida, uma vez que remete a um ideal de construção societária/comunitária ou de grupo de pertencimento.
Nossa análise buscou superar a crítica de Bourdieu (1986) às análises centradas nas trajetórias de vida, uma vez que a mesma se referia à descontextualização dos relatos. Concordamos com Bourdieu, quando ele afirma que não se pode compreender uma trajetória sem que se tenha estabelecido as
etapas sucessivas do campo no qual esta trajetória teve lugar, ou seja, o conjunto de relações objetivas que marcam o contexto. A sucessão de posições que marcam uma trajetória de vida está relacionada ao espaço social no qual ela se desenvolve.
Os acontecimentos que marcam uma biografia se definem pelos deslocamentos no espaço social, “pelos diferentes estados sucessivos da estrutura de distribuição dos diferentes tipos de capital que estão em jogo em cada campo considerado” (Bourdieu, 1986, p. 71).
A análise das entrevistas, por sua vez, não deve se restringir a exemplificar categorias e hipóteses preestabelecidas, realizando a simples retranscrição literal, reduzindo o comentário ao mínimo, nem tampouco tomá-las como uma simples fonte de informações do mundo exterior, mas sim e imperativamente, entendê-las como fatos de linguagem e, como tal, compreender que as entrevistas são a materialização do social em palavras. O resultado da interpretação deve ter por princípio a busca da estrutura que ordena as categorias de análise, que organiza a produção dos relatos e que, ao mesmo tempo, estabelece a dinâmica da inserção dos relatos no contexto social.
De acordo com Ferraroti (1983), o método de investigação das histórias de vida transforma em real e dá sentido humano ao esquema conceitual e intemporal de produção-troca-consumo-produção. A biografia individual tem sentido se estabelecemos a relação entre a trajetória de vida e as características da situação histórica vivida e datada. É desta forma que o approach biográfico se autonomiza e podemos construir o estatuto científico do aspecto subjetivo inerente a um relato biográfico, o qual, por sua vez, é construído a partir de uma interação complexa entre o narrador e o observador/entrevistador. Uma vida consiste na prática de apropriação das estruturas sociais num jogo
permanente de interiorização, transformando-as em estruturas psicológicas por uma atividade de desestruturação/reestruturação. Cada vida humana é a síntese vertical de uma história social. Não se trata simplesmente de refletir o social, o indivíduo se apropria do social, e, através de um processo
de mediação, o filtra, e o retraduz ao projetá-lo em uma outra dimensão, aquela que, consequentemente, vai compor sua subjetividade.
Em suma, podemos afirmar que as relações entre os sujeitos entrevistados e seu trabalho foram analisadas levando em conta os aspectos descritos até aqui. Buscamos, assim, identificar os dispositivos que atuam nos processos de subjetivação, para, desta forma, compreender os parâmetros que balizam a reflexão ética dos trabalhadores em relação à vida em sociedade, ou seja, à decodificação das regras morais presentes no jogo de verdades próprio a cada época.
Estes dispositivos compreendem sanções sociais que agenciam modos de ser. Dependem, portanto, das relações de poder presentes nos jogos de dominação e resistência que inscrevem os indivíduos na vida em sociedade.
Discutiremos a seguir as trajetórias de vida e trabalho de 30 jovens trabalhadores. Não apresentaremos os relatos integrais das entrevistas, pois não haveria espaço no artigo. Como alternativa à forma clássica de apresentação das trajetórias de vida, buscaremos identificar as características centrais de cada grupo e subgrupo, assim como suas peculiaridades e diferenças internas. A Tabela 1 apresenta a distribuição dos entrevistados considerando a inserção profissional e o setor da Economia.
Iniciaremos nossa análise explorando as entrevistas dos jovens pertencentes ao primeiro grupo (nova economia –internet, telecomunicações e informática – e setor bancário pós-reestruturação).
Setor bancário pós-reestruturação
O número de trabalhadores do setor bancário diminuiu em 50% na década de 90 no Brasil (DIEESE, 2002), devido a um processo radical de reestruturação organizacional associada a uma ampla informatização dos serviços. O banco no qual trabalham os entrevistados pertence a um poderoso grupo espanhol. A instituição trocou cinco vezes de nome e de controle de capital nos anos 90, seguindo o fluxo intenso de fusões e aquisições que marca o período do turbo-capitalismo.
A maior parte dos empregados mais velhos foi demitida no processo de reestruturação.
As tarefas bancárias também se transformaram completamente. A maior parte das funções burocráticas foi informatizada e os empregados se tornaram vendedores de produtos. O banco fixa cotas de venda (metas de produtividade) extremamente elevadas para cada agência (imposição coletiva) e para cada “colaborador” (imposição individual).
Uma boa parte do salário depende do sucesso em atingir as cotas, mesmo que parcialmente, uma vez que o salário fixo é pouco atrativo. As ferramentas de gestão ligadas às competências “interpessoais” são largamente utilizadas como estratégia de motivação para o incremento das vendas e como forma de interiorização do discurso de valorização da competição interna à empresa (entre colegas) e externa (entre os bancos). As competências técnicas são percebidas pelos jovens como tendo importância secundária em relação às competências interpessoais para o ingresso no mercado de trabalho
e para o sucesso profissional.
Uma longa carreira em uma mesma empresa não é algo almejado, mesmo acreditando que o banco oferece verdadeiras possibilidades de carreira para aqueles que são “agressivos” na busca do sucesso e que interiorizaram o espírito da empresa. A partir desta lógica, a troca de empregos e a acumulação
de experiências são percebidas como um valor agregado à pessoa no mercado de trabalho.
Os entrevistados foram contratados como estagiários logo no início do curso de administração de empresas. A seleção foi rigorosa e privilegiou os candidatos mais agressivos e competitivos. Eles foram rapidamente promovidos ao cargo de gerente de conta após uma formação intensiva baseada,
sobretudo, em técnicas de motivação. O marketing interno do banco é muito eficaz e eles dizem-se orgulhosos de pertencer ao décimo maior banco do mundo. Eles também se dizem felizes no trabalho, mas ao mesmo tempo afirmam ter de ser felizes para trabalhar. A felicidade faz parte das qualidades
necessárias para ingressar e se manter no mercado.
A competição interna entre os trabalhadores, as taxas elevadas de desemprego no setor e as constantes trocas de controle de capital do banco criaram um clima de insegurança e de instabilidade. Entretanto, este clima é considerado como normal. A lógica central da forma de implicação no trabalho e na sociedade é aquela do poder supremo do indivíduo. As relações sociais produzidas a partir da competição como valor central e da sobrevivência do mais forte/apto/competente são naturalizadas. O indivíduo é considerado todo poderoso e capaz de ultrapassar qualquer dificuldade. O mundo é feito
para aqueles que aproveitam as oportunidades e que se adaptam às transformações impostas pelo mercado. A lógica da seleção natural é utilizada como metáfora do mercado de trabalho.
A forma de se posicionar em relação ao trabalho e à sociedade evidencia-se na reflexão utilizada para responder ao dilema ético. A reflexão constrói-se a partir de uma lógica individualista e instrumental. A decisão de testemunhar ou não em defesa do colega é ligada a um julgamento de custo-benefício.
Tabela 1
Inserção profissional 5
Mercado formal 15
Mercado informal 55
Setor
Banco pós-reestruturação 20
Nova economia (telefonia celular/Internet/informática) 10
Economia solidária: galpão de reciclagem 30
Projeto comunitário: telecentro 10
Participantes
Todos os entrevistados acreditam que os colegas não testemunhariam. No caso de se colocar na situação, aqueles poucos que testemunhariam, o fariam porque crêem que a decisão os ajudará a galgar alguns degraus na carreira dentro da empresa porque a ética está na moda. Nas respostas dos
jovens, percebe-se um cinismo que se integra como regra de conduta em relação aos colegas de trabalho e como norma de sobrevivência nas estratégias de inserção na sociedade.
A maior parte dos jovens não é sindicalizada. O sindicato, na opinião deles, não tem um papel importante na defesa dos direitos conquistados, pois não tem força no enfrentamento direto com as empresas e porque deturpou seu objetivo tornando-se excessivamente político. Esta idéia, que está fortemente ancorada no imaginário, contrasta com a história do sindicato do setor que foi um dos mais fortes na história brasileira recente.
Os jovens não se interessam pela política. Os entrevistados mais convencidos da verdade contida nas prescrições do discurso de gestão são os mais individualistas nas formas de inserção no trabalho e na sociedade. Os sentimentos e as lógicas evidenciados pela análise das entrevistas denotam certa ambigüidade quando a temática da entrevista girava em torno dos problemas sociais como a miséria,
a violência, a pobreza, ou mesmo, a possibilidade de pensar o futuro no longo prazo. Entretanto, invariavelmente, após um momento de hesitação, a lógica do indivíduo todo-poderoso impunha-se como uma defesa psíquica contra as mazelas do contexto social.
Existem algumas diferenças importantes no mercado de trabalho das profissões ligadas à Internet, à informática e à telefonia. Estas diferenças referem-se às características e à história de cada setor. O mercado da telefonia móvel é mais tradicional, uma vez que, num primeiro momento, ele estruturou-se a partir das empresas de telefonia fixa através da privatização das estatais, abrindo-se, somente num segundo momento, ao mercado internacional. A base do capital das empresas do setor é, hoje, multinacional. O mercado estava em expansão até o fim de 2001. Após, a previsão de crescimento
foi revista e hoje o mercado é mais competitivo. Muitas das empresas já iniciaram os processos de reestruturação com fusão dos grupos iniciais, processo esse acompanhado dos habituais enxugamentos de pessoal.
As estatísticas públicas para o setor da informática e Internet não se adaptaram às ocupações da nova economia e ainda é difícil compreender o cenário do mercado de trabalho. As análises parciais existentes indicam que ainda existe demanda de profissionais no setor, sobretudo daqueles com alta qualificação técnica. O setor hoje se compõe de uma diversidade muito grande de formas de inserção profissional, que vão da pequena empresa local às grandes empresas multinacionais, passando pelos profissionais autônomos que prestam serviço na forma de assessoria como profissionais liberais, pelo setor público e até por formas de inserção precárias no mercado informal. O setor ainda não é dominado pelas grandes empresas multinacionais como é o caso da telefonia móvel. Ainda como uma marca diferencial importante, podemos dizer que os profissionais da informática encontram uma grande possibilidade de mobilidade em múltiplas áreas da economia, devido à onipresença da informática.
O profissional típico do setor é um jovem com diploma universitário na área de informática, engenharia ou em administração de empresas. A adesão aos novos discursos de gestão é mais freqüente nos profissionais ligados à área de administração/marketing do que naqueles que se ocupam mais exclusivamente da área técnica. Os profissionais técnicos mantêm certa distância moral da lógica competitiva das empresas.
As trocas de conhecimento tecnológico, as quais fazem parte da necessidade permanente de atualização, os impelem a valorizar o trabalho em equipe. São jovens que se identificam com a lógica do empreendedorismo e acreditam poder construir uma carreira baseada nas competências pessoais.
Entretanto, não estão seguros para realizar um planejamento do futuro no longo prazo. A velocidade das mudanças no setor impede uma visão clara do futuro. Eles estão habituados às mudanças e naturalizaram os riscos associados à carreira. O desenvolvimento da competência técnica e a atualização
permanente são as armas utilizadas para enfrentar as incertezas do futuro.
No setor da telefonia, uma característica marcante é a identificação com o marketing externo das empresas. A identificação com a imagem publicitária altamente utilizada pela companhia é motivo de orgulho e, dentro desta mesma lógica, os profissionais reconhecem que a relação com esta é dotada do mesmo caráter efêmero da publicidade. Eles jogam o jogo da empresa e dizem que se deve ficar no mesmo emprego somente o tempo necessário para “agregar valor” à carreira.
A referência às competências emocionais (ou interpessoais) é uma constante nas características descritas como necessárias para ingressar no mercado de trabalho. Além das competências emocionais e técnicas, o domínio de uma ou duas línguas estrangeiras é considerado essencial. O inglês, sobretudo com relação à área técnica, e o espanhol em razão da língua matriz da companhia (a qual detém a maior
fatia do mercado no Rio Grande do Sul), além do interesse comercial no Mercosul.
A resolução do dilema ético acompanha as diferenças já descritas entre os profissionais técnicos e aqueles ligados ao marketing e à administração.
Os analistas de sistema crêem no valor da verdade e da honestidade nas relações de trabalho. Eles se dizem prontos a deixar uma empresa na qual não exista uma relação de confiança entre colegas. Esta resposta se associa às possibilidades de mobilidade dentro de um mercado que ainda necessita de profissionais qualificados. Além deste fato, a confiança é a base de um trabalho em rede que depende da cooperação entre os membros da equipe.
Os profissionais ligados aos setores de administração e marketing, por sua vez, são os mais contaminados pela razão cínica já descrita na análise dos jovens do setor bancário.
Outro fator importante que as entrevistas denotam é a ruptura com os valores morais associados ao trabalho, característicos da geração dos pais destes jovens. Nada do que eles aprenderam com relação ao trabalho é válido para o cotidiano. O mundo mudou completamente e os jovens trabalham em uma área não imaginada pelos pais. É um mundo novo entendido como pleno de possibilidades, mas, ao mesmo tempo, muito incerto e muito injusto. A solução encontrada para a busca da felicidade não é diferente daquela encontrada nos outros grupos de jovens, ou seja, a busca individual do sucesso.
O grupo é composto por 10 jovens de até 30 anos, divididos em dois subgrupos. O primeiro é composto por trabalhadores de um galpão de reciclagem localizado em um bairro da região periférica de São Paulo. O segundo subgrupo é formado por voluntários que se engajaram em um projeto da Prefeitura Municipal, denominado Telecentro, e desenvolvem um projeto de monitoria em computação para moradores da comunidade. Os subgrupos diferem no nível de escolaridade: os recicladores não concluíram o ensino fundamental, enquanto os monitores de informática têm o nível médio completo, além de curso técnico em processamento de dados.
Ambos os projetos, embora desenvolvidos por membros da comunidade local, são financiados parcialmente por verbas municipais. O galpão de reciclagem foi criado a partir da mobilização da população dentro do Orçamento Participativo da cidade. A prefeitura de São Paulo, via Secretaria Municipal da Indústria e Comércio, disponibilizou o prédio do empreendimento assim como as prensas utilizadas para a compactação do lixo.
O projeto do Telecentro também conta com uma parceria com a Companhia de Processamento de Dados do Município de São Paulo, que disponibiliza os computadores, sua manutenção e suporte aos monitores, além de bolsas para dois menores aprendizes e um monitor adulto. Os outros monitores envolvidos trabalham voluntariamente. A comunidade contribui com um local para o desenvolvimento
do projeto e com a arrecadação dos encargos para o pagamento de água, luz, limpeza e segurança do mesmo. Os voluntários encontram-se desempregados ou prestam serviços no mercado informal.
Os entrevistados demonstram orgulho das organizações em que trabalham, justificando a importância das mesmas, no primeiro subgrupo devido à função ecológica da reciclagem do lixo e, no segundo, pela difusão do conhecimento na informática. Entretanto, o ingresso dos jovens nos empreendimentos não se dá primordialmente pela identificação com a questão ideológica, mas pela falta de alternativa econômica e na perspectiva de que estes vínculos sejam uma passagem transitória até conseguirem um emprego no mercado formal.
Tal desvinculação com o projeto de economia solidária pode ser observada na alienação em relação ao funcionamento do galpão e ao processo de produção como um todo. A execução do trabalho é feita de forma muito semelhante aos moldes de uma empresa de organização do trabalho taylorista, excetuando-se a divisão dos lucros (embora aqui eles também não acompanhem os preços de mercado e as negociações para venda do material separado para reciclagem).
Da mesma forma, os jovens do Telecentro não vêem o mesmo como uma oportunidade de inclusão digital da população, mas como uma forma de afastamento dos jovens da comunidade do envolvimento com as drogas ou com a violência. O lugar desse projeto em suas vidas está bastante ligado à busca de novas oportunidades de emprego na área de informática.
Os entrevistados dos dois subgrupos almejam conseguir empregos em postos de trabalho tradicionais com carteira assinada e com as garantias a ela associadas. Eles acreditam na possibilidade de permanecer por um longo tempo em uma empresa, sendo poucos os que prefeririam desenvolver um negócio próprio. Contudo, os jovens descrevem o perfil de um trabalhador com poucas chances no mercado de forma muito semelhante às suas próprias características, como eles mesmos dizem: baixa escolaridade, má aparência e cor negra.
A importância do trabalho é justificada como forma de garantir o sustento, como valor moral e recurso para “distrairse” dos problemas pessoais/sociais. Os jovens reconhecem a escassez de vagas no mercado atual. No entanto, consideram a escolaridade mais alta como condição suficiente para encontrar um bom emprego. A felicidade almejada é representada pelos vínculos de proximidade e o desejo de sair da situação de vulnerabilidade permanente, podendo desta forma estar cercado de pessoas amigas, ter segurança e saúde pessoal e familiar. Os desejos futuros envolvem melhorar o padrão de vida, conseguir um trabalho mais qualificado e adquirir bens próprios, como casa e, em alguns casos, carro.
A impossibilidade de planejar o futuro ancora-se nas decepções acumuladas na não concretização de planos anteriores. Os trabalhadores almejam que suas esperanças não alcançadas sejam realizadas pelos filhos. A competição e o individualismo são valores presentes no discurso sobre as possibilidades de ingresso no mercado de trabalho. Da mesma forma, fazer a opção pela omissão (não testemunhar) na resolução do dilema ético é vista como a única alternativa viável. Embora seja considerada como uma
opção incorreta em termos morais, esta é justificada pela necessidade de sobrevivência. Tal resposta é mais característica daqueles jovens cuja trajetória de vida é marcada por um maior grau de vulnerabilidade social, a qual pode ser associada à falta de suportes sociais e familiares, como é o caso dos trabalhadores do galpão de reciclagem e dos jovens desempregados que são voluntários no Telecentro.
Conclusão: O exercício de comparação entre os relatos dos trabalhadores da economia solidária e dos jovens da nova economia evidencia de forma clara o fosso social brasileiro. As diferenças de recursos e competências pessoais adquiridos ao longo da vida, associadas à ausência e/ou fragilidade dos suportes
sociais, nos possibilita construir um esquema explicativo das desigualdades que marcam as possibilidades de inserção no mercado de trabalho.
Encontramos nos relatos regularidades ligadas aos dispositivos associados ao novo discurso de gestão, os quais agenciam os processos de subjetivação dos jovens dos setores bancário e da nova economia. Esse discurso constrói o eu ideal em torno de um indivíduo onipotente e capaz de enfrentar de forma solitária a reestruturação organizacional e tecnológica associada às transformações do capitalismo. A
construção desse eu ideal produz efeitos nas formas de reflexão ética utilizadas pelos jovens nas decisões que marcam sua inserção no laço social.
A adesão completa ao discurso hegemônico de gestão acompanha-se de uma adesão à lógica do darwinismo social e do liberalismo selvagem. A ilusão individualista, o reino do privado e da competição transformaram-se em modos de regulação da vida.
Esses jovens se enquadram no perfil descrito pelo novo discurso gerencial como trabalhadores flexíveis, móveis, empreendedores e adaptados às exigências do mercado de trabalho pós-terceira revolução industrial e globalizado. Estes trabalhadores atravessaram processos de subjetivação inundados pelo regime de verdade referente ao trabalho que configura um contexto espaço-temporal distinto
daquele da modernidade. Encontramos nas entrevistas uma tensão permanente que, por um lado, evidencia uma pretensa maior autonomia, liberdade e possibilidades de escolha com relação aos projetos de vida e, pelo outro, uma transformação radical em relação à segurança ontológica e à vivência de uma temporalidade que permitiu à geração dos pais, o planejamento da vida e a construção do caráter – no sentido que Sennet (1998) atribui a este termo. Nesta direção, Gauchet (1998) afirma que estaríamos entrando em uma nova fase, na qual assistimos ao surgimento de uma “personalidade” contemporânea desconectada simbólica e cognitivamente do todo social. Um indivíduo para o qual o conjunto da sociedade não faz sentido. Pela primeira vez na história teria sido possível produzir um indivíduo que ignora que vive em sociedade, que não comporta um senso de responsabilidade para
com as regras sociais. Este hiperindividualismo conduziria a um sentimento de não ser nada e não estar em lugar nenhum.
A partir de uma perspectiva semelhante, Enriquez (1997) afirma que a questão ética tornou-se central na nossa sociedade, pois o mal-estar de nossa época é reforçado pelo aumento do individualismo. Este se apresenta sob uma forma narcisista, que é conseqüência da impossibilidade de pensar o futuro e,
por esta razão, produz uma incontrolável vontade de aproveitar os momentos da forma mais intensa e imediata possível.
Esta perspectiva de um presente ansioso e angustiado demarca a ausência de princípios que forneçam sentido para a vida em comum, apontando assim para a fragilidade do laço social e, ao mesmo tempo, para o excesso de individualismo causado pela destruição dos valores da modernidade e pela dissociação dos laços centrados no trabalho. Sem, entretanto, que esses valores tenham sido substituídos por qualquer outro que não seja o consumo da própria existência. Ortega (1999) afirma que é somente o encontro e o respeito pelo outro na sua alteridade absoluta e o reconhecimento da finitude do ser e dos limites de cada ser que permitem destruir com a tirania do eu e possibilitam a solidariedade.
Na visão de todos os jovens entrevistados, o mundo se transformou profundamente e ele é mais injusto, mais violento, mais desigual. Entretanto, esta constatação não é acompanhada por qualquer sentimento de responsabilidade para com a transformação do contexto social. Aqueles que aderem de forma totalitária ao discurso da aventura empreendedora e do indivíduo conquistador (Ehrenberg, 1996) são aqueles que demandam ao Estado medidas duras de repressão à criminalidade sem se perguntar das causas do incremento da violência. Aqueles que são mais críticos com relação ao discurso do desempenho individual/competição como valor central, ou que, pelo menos, crêem na construção de regras e de limites para os jogos do mercado, defendem a necessidade do investimento em políticas públicas em saúde e educação.
De acordo com Castel (1998), a nova ordem ameaça uma série de conquistas que qualificaram o locus societário dos trabalhadores e possibilitaram associar ao trabalho o acesso à proteção social, representada pela seguridade social e pelas políticas públicas que afastaram os trabalhadores do imperativo da necessidade. Castel demonstra a construção da categoria dos supranumerários e dos desfiliados como produto da fratura (ou prenúncio desta) que assombra as sociedades contemporâneas e empurra para o primeiro plano as temáticas da precariedade, do desterro e da desfiliação. Aponta
também para homologias de posição entre os inúteis para o mundo, representados pelos vagabundos do período anterior à revolução industrial, e as diferentes categorias de inempregáveis de hoje.
Nos relatos dos jovens que participam de projetos ligados à economia solidária, encontramos a lógica da sobrevivência como ordenadora do discurso. A seleção “natural” se apresenta na defesa da competição como única maneira para conseguir se manter vivo. Embora esse subgrupo tenha um discernimento acerca do contexto de vulnerabilidade em que vive e não se identifique com o liberalismo como solução para seus problemas, o mesmo afirma que não é possível ter uma renda satisfatória para sustentar suas necessidades dentro dos movimentos em que se insere. Assim, mesmo tendo uma visão crítica acerca da importância do papel regulador do governo no mercado e pela via da seguridade social, os jovens não conseguem efetivar um projeto que busque transformar a configuração social. Sua vinculação aos empreendimentos solidários é vista como temporária e o emprego é considerado um quebra-galho
para diminuir sua condição precária, mas que será substituído prontamente caso surja uma oportunidade de emprego melhor remunerado e estável. A ambição dos jovens centra-se no sonho de conseguir uma posição no mercado formal que lhes permita ter segurança.
Nossa análise indica que os projetos de economia solidária estudados não se apresentam como real opção aos trabalhadores no mercado de trabalho. Esses funcionam apenas como alternativa ao desemprego, não se constituindo efetivamente como um contraponto à posição central ocupada
pelas atuais formas de gestão.
As transformações contemporâneas do capitalismo têm conseqüências para a estrutura e dinâmica da coesão social em todo o mundo. As novas guerras, a violência urbana crescente e o terrorismo são bons exemplos dos efeitos da nova configuração da sociedade sob a égide do mercado. Entretanto, nas sociedades mais desiguais e com economias mais frágeis, como é o caso do Brasil, as conseqüências são mais duras, uma vez que a tarefa de diminuição das desigualdades e a construção de uma sociedade mais igualitária depende de transformações nas formas de implicação no laço social. Se, como constatamos nas entrevistas com os jovens, as formas de adesão ao discurso de gestão acompanha as formas de implicação no laço social, estamos caminhando na direção contrária de um pacto social que visa à construção de uma sociedade mais justa.
O exemplo que segue, mesmo se tratando de um relato particularmente forte, ilustra bem nosso argumento. Entrevistamos um jovem diretor de uma empresa de informática, que nos disse: “Eu não gosto de ser brasileiro, acho que nasci no lugar errado. Eu não consigo ter patriotismo pelo Brasil porque eu não vejo ele me ajudando em nada, estou comprando o meu passaporte para a minoria.”
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A Nova economia e a economia solidária
Resumo
O mercado de trabalho contemporâneo aprofundou o fosso social que separa a população inserida no mercado daquela que sobrevive de forma precária. A economia solidária surgiu como contraponto à fratura social daí decorrente. Utilizando a abordagem biográfica, discutimos as trajetórias de trabalho de 30 jovens divididos em dois grupos. O primeiro grupo é composto por 15 jovens empregados no setor da nova economia (informática, telecomunicações e Internet) e 5 jovens empregados no setor bancário pós-reestruturação; o segundo grupo é composto por 5 jovens ligados a um projeto de economia solidária e 5 jovens vinculados a um projeto comunitário. As entrevistas dos jovens inseridos no primeiro grupo revelam a adesão ao discurso gerencial e a constituição de uma ética individualista. Para os jovens do segundo grupo, a economia solidária e o associativismo constituem somente uma alternativa ao desemprego. Frente a essa constatação, perguntamos se estes projetos se constituem efetivamente como um contraponto à lógica de adesão ao discurso de gestão contemporâneo.
Palavras-chave: reestruturação produtiva; subjetividade; abordagem biográfica; nova economia; economia solidária
As transformações nas formas de acumulação e nos regimes de regulação no capitalismo se alteraram profundamente nos últimos 30 anos. As competências exigidas para a integração no ciclo produtivo também se modificaram, alterando as possibilidades e as formas de ingresso no mercado de trabalho. Até os anos 1970, a possibilidade do pleno emprego – mesmo que ela nunca tenha se configurado de forma plena no Brasil – exerceu um papel essencial de integração no capitalismo industrial e serviu de via privilegiada de acesso aos direitos sociais. Assim, o acesso aos direitos de forma igualitária estava em relação direta com a objetividade anterior (Castel & Haroche, 2001), ou seja, as condições materiais de existência que moldam as características dos modos de subjetivação em cada contexto histórico. É, portanto, a partir da articulação trabalho/mercado/subjetividade que propomos analisar duas formas de inserção social via trabalho em dois pólos distintos da nova configuração do capitalismo, levando em conta a especificidade da sociedade brasileira.
A partir da aceitação da premissa de que a relação entre subjetividade e trabalho remete à análise da maneira como os sujeitos vivenciam e dão sentido às suas experiências de trabalho (Nardi, Tittoni, & Bernardes, 2002), fica evidente que a interpretação dessa relação nos coloca frente à especificidade
histórica assumida pela relação dos sujeitos com seu trabalho em cada contexto socioeconômico. Assim, a relação entre subjetividade e trabalho muda se analisarmos a relação do cidadão e do escravo com o trabalho na Grécia, do senhor feudal e do servo na Idade Média, do operário da indústria fordista e do jovem analista de sistemas nas empresas ligadas à nova economia no século XXI. É neste sentido que
Deleuze (1986), por exemplo, afirma que as mutações do capitalismo engendram a produção de uma nova subjetividade, visto que cada mutação social implica em uma reconversão subjetiva com suas ambigüidades, assim como com seu potencial de resistência e transformação.
Trata-se de pensar a subjetividade através dos processos e dos modos de subjetivação. Para Fonseca (1995), os modos de subjetivação referem-se ao modo predominante como os sujeitos relacionam-se com a regra e a forma como se vêem obrigados a cumprir e, ao mesmo tempo, se reconhecer como ligados a essa obrigação. Os processos de subjetivação, por sua vez, podem ser compreendidos a partir da análise da maneira como cada indivíduo se relaciona com o regime de verdades próprio a cada período, ou seja, a forma como o conjunto de regras que define cada sociedade é experimentado em cada trajetória de vida.
O trabalhador da modernidade definia-se a partir de um regime de verdades (Foucault, 1994) que determinava uma forma de ser e existir no qual o trabalho constituía-se como elemento central e determinante do código moral que estabelecia as regras de conduta e guiava o julgamento das ações
com relação à estrutura da família, à educação dos filhos, à ação política e determinava a natureza central do laço social.
A indústria representava o setor da economia que guiava os Estados à independência e ao desenvolvimento econômico e social.
Como fruto deste modelo, o período posterior à II Guerra Mundial consolidou na Europa um modelo de Estado Nação e de organização societária baseados no assalariamento da maioria da população e sobre o qual se construiu o aparato institucional que constitui o que Castel (1998) denominou como a propriedade social.
A propriedade social constituiu-se no elemento central do Estado Social e representava o suporte social para o exercício da igualdade de direitos. Este Estado “protetor” garantiu o acesso igualitário aos direitos sociais pela via da oferta de serviços públicos e formas de suporte social tais como a habitação
de baixo custo (ou a ajuda financeira para a locação), sistema de saúde público, creches, asilos, educação pública universal, seguro desemprego; enfim, um conjunto de suportes que podem ser alocados sob a denominação genérica de seguridade social. A construção desse aparato institucional só
foi possível graças à generalização da oferta de trabalho na sua forma emprego. O trabalho representava a garantia moral (do ponto de vista simbólico) e material (do ponto de vista concreto)
do exercício da cidadania plena. Esse modelo, mesmo que nunca tenha sido implantado completamente no terceiro mundo e no Brasil em particular, serviu de modelo para a construção de uma sociedade centrada no trabalho industrial.
O conceito de cidadania regulada definido por Santos (1979) e discutido por Gomes (1982), afirma que a aquisição dos direitos sociais no Brasil esteve associada ao assalariamento e à estratificação profissional. A carteira assinada exercia o papel de um atestado de “moralidade” exemplar.
Outro fator fundamental que estabelece a diferença entre o presente e o passado recente na sociedade brasileira refere-se às transformações da dimensão temporal no planejamento possível das trajetórias de vida. O trabalho na modernidade permitiu o planejamento a longo prazo na construção dos projetos de vida. O trabalho baseado na experiência e na dedicação era a garantia para o acesso aos bens materiais e para a construção de uma vida estruturada e previsível dentro de um código moral claro, mas, ao mesmo tempo, restritivo. O estudo de Colbari (1995) mostra como a dedicação à família e
ao trabalho constituíam-se em características centrais dos processos de subjetivação do homem trabalhador. O fator de identificação principal associava a disciplina do trabalho ao papel de provedor da família. A noção de provedor de família pode ser caracterizada quase como um tipo ideal – no sentido
weberiano – se considerarmos a interpretação de Colbari das trajetórias de vida dos ganhadores do concurso OperárioPadrão do Brasil.
A crítica do código moral restritivo da modernidade foi, de acordo com Boltanski e Chiapello (1999), incorporada de forma instrumentalizada pelo discurso gerencial que emerge a partir dos anos 1980. O novo discurso define o ideal de trabalhador como flexível, competitivo e individualista. Os padrões daquilo que é considerado correto ou incorreto moralmente passam a obedecer a um critério de custo/benefício, abandonando os princípios guias que permitiram conduzir as escolhas de vida no longo prazo (Sennett, 1998).
As transformações do mundo do trabalho, decorrentes da última crise do capitalismo, transformaram a base material e simbólica associada ao trabalho. O esgotamento do modelo fordista-taylorista; a terceira revolução industrial (a associação da informática e das telecomunicações); a globalização; a
criação dos blocos econômicos; o fim da guerra fria; a falência do socialismo real e a crise dos grandes discursos explicativos e totalizantes, entre uma série de outros aspectos, são fatores determinantes do estado de incertezas em que se encontra o mundo e as instituições sociais que serviram de base para a regulação societária e que garantiram uma determinada segurança ontológica (Giddens, 1989) na
modernidade.
Essas mudanças no modelo produtivo se associam à crise da sociedade salarial na Europa e à emergência de uma zona de vulnerabilidade social no seio das sociedades industriais (Castel, 1998).
No Brasil, a destruição do Estado Social em sua fase embrionária – idealizada pela constituição de 1988, mas abortada pela onda liberal dos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso – e o incremento da flexibilização das relações de trabalho relacionam-se à precarização, por um lado, e ao aumento das exigências de qualificação, pelo outro. Estes elementos associados constituem uma nova conjuntura global/local e configuram a posição do Brasil na nova divisão internacional do trabalho,
além de produzir o incremento das desigualdades estruturais da sociedade brasileira.
A partir dessa nova configuração das formas de inserção no mercado de trabalho buscamos investigar neste artigo: por um lado, os trabalhadores da ponta mais avançada do mercado de trabalho atual (a nova economia), ou seja, os jovens (de até 30 anos) inseridos em áreas consideradas como de vanguarda em relação às inovações tecnológicas e organizacionais – informática e Internet e a telecomunicação móvel (celular) e os bancos (por representarem um dos setores que mais sofreu alterações com a reestruturação produtiva) – e, pelo outro, os jovens que não se inseriram no mercado de trabalho formal e que estão vinculados a projetos de economia solidária. É importante esclarecer ao
leitor que o termo jovem é usado aqui de forma ampliada, não se restringindo às categorias do IBGE (até 24 anos).
Uma vez que ao buscarmos construir uma estratégia comparativa de análise e sabendo que o acesso às ocupações da nova economia depende de formação universitária, utilizamos como critério de corte a idade de 30 anos. Além deste critério, e como nos demonstra Petras (1999), as novas exigências do mercado têm ampliado a idade de entrada no mercado de trabalho formal.
A articulação téorico-metodológica se construiu a partir da compreensão do jogo de verdades sobre o trabalho e seus efeitos nos processos de subjetivação. Buscamos nas projeções que os trabalhadores fazem de seu ideal e, em oposição, do não-ideal de suas situações de vida e trabalho, os efeitos dos discursos veiculados sob a forma de saber. Para Foucault (1987), quando alguém fala veiculando um discurso, o que está em questão, quanto à autoria, não é somente a subjetividade de quem fala, mas também o lugar que se ocupa ao falar.
O instrumento de pesquisa que utilizamos consiste em entrevistas aprofundadas que buscaram reconstruir as trajetórias de vida dos trabalhadores. A técnica de pesquisa foi escolhida por ser a mais adaptada para entender como os sujeitos construíram suas vidas a partir da inserção (ou da tentativa de) no mercado de trabalho. Os relatos nos possibilitaram descrever e entender como o trabalho atravessa os processos de subjetivação e como os sujeitos trabalhadores realizam os julgamentos morais que conduzem suas vidas em sociedade e seus engajamentos no laço social.
A utilização do método biográfico nos permite abordar o coletivo pelo individual. Por meio das rajetórias
de vida e da proposição de um dilema ético aos entrevistados, foi possível estabelecer quais parâmetros balizam a reflexão ética construída pelos indivíduos a partir de sua compreensão das normas sociais presentes nos contextos nos quais estão inseridos. A análise da construção das individualidades em interação é possível mediante a abordagem das trajetórias de vida. Trata-se do estudo do espaço ocupado pelo sujeito no contexto social, de uma posição que se constrói não como um dado definitivo, não como uma posição fixa na estrutura social, mas como uma tarefa, ou uma obra, constantemente
em produção. Cabanes (2002) afirma: “Mais precisamente, somente o relato biográfico – récit biographique – permite efetuar a primeira parte do projeto que é a condição para a análise da construção social da relação consigo mesmo”. A utilização da noção de ideal de nós (idéal de nous), proposta pelo autor, e derivada do conceito de ideal de eu, é bastante frutífera na análise das trajetórias de vida, uma vez que remete a um ideal de construção societária/comunitária ou de grupo de pertencimento.
Nossa análise buscou superar a crítica de Bourdieu (1986) às análises centradas nas trajetórias de vida, uma vez que a mesma se referia à descontextualização dos relatos. Concordamos com Bourdieu, quando ele afirma que não se pode compreender uma trajetória sem que se tenha estabelecido as
etapas sucessivas do campo no qual esta trajetória teve lugar, ou seja, o conjunto de relações objetivas que marcam o contexto. A sucessão de posições que marcam uma trajetória de vida está relacionada ao espaço social no qual ela se desenvolve.
Os acontecimentos que marcam uma biografia se definem pelos deslocamentos no espaço social, “pelos diferentes estados sucessivos da estrutura de distribuição dos diferentes tipos de capital que estão em jogo em cada campo considerado” (Bourdieu, 1986, p. 71).
A análise das entrevistas, por sua vez, não deve se restringir a exemplificar categorias e hipóteses preestabelecidas, realizando a simples retranscrição literal, reduzindo o comentário ao mínimo, nem tampouco tomá-las como uma simples fonte de informações do mundo exterior, mas sim e imperativamente, entendê-las como fatos de linguagem e, como tal, compreender que as entrevistas são a materialização do social em palavras. O resultado da interpretação deve ter por princípio a busca da estrutura que ordena as categorias de análise, que organiza a produção dos relatos e que, ao mesmo tempo, estabelece a dinâmica da inserção dos relatos no contexto social.
De acordo com Ferraroti (1983), o método de investigação das histórias de vida transforma em real e dá sentido humano ao esquema conceitual e intemporal de produção-troca-consumo-produção. A biografia individual tem sentido se estabelecemos a relação entre a trajetória de vida e as características da situação histórica vivida e datada. É desta forma que o approach biográfico se autonomiza e podemos construir o estatuto científico do aspecto subjetivo inerente a um relato biográfico, o qual, por sua vez, é construído a partir de uma interação complexa entre o narrador e o observador/entrevistador. Uma vida consiste na prática de apropriação das estruturas sociais num jogo
permanente de interiorização, transformando-as em estruturas psicológicas por uma atividade de desestruturação/reestruturação. Cada vida humana é a síntese vertical de uma história social. Não se trata simplesmente de refletir o social, o indivíduo se apropria do social, e, através de um processo
de mediação, o filtra, e o retraduz ao projetá-lo em uma outra dimensão, aquela que, consequentemente, vai compor sua subjetividade.
Em suma, podemos afirmar que as relações entre os sujeitos entrevistados e seu trabalho foram analisadas levando em conta os aspectos descritos até aqui. Buscamos, assim, identificar os dispositivos que atuam nos processos de subjetivação, para, desta forma, compreender os parâmetros que balizam a reflexão ética dos trabalhadores em relação à vida em sociedade, ou seja, à decodificação das regras morais presentes no jogo de verdades próprio a cada época.
Estes dispositivos compreendem sanções sociais que agenciam modos de ser. Dependem, portanto, das relações de poder presentes nos jogos de dominação e resistência que inscrevem os indivíduos na vida em sociedade.
Discutiremos a seguir as trajetórias de vida e trabalho de 30 jovens trabalhadores. Não apresentaremos os relatos integrais das entrevistas, pois não haveria espaço no artigo. Como alternativa à forma clássica de apresentação das trajetórias de vida, buscaremos identificar as características centrais de cada grupo e subgrupo, assim como suas peculiaridades e diferenças internas. A Tabela 1 apresenta a distribuição dos entrevistados considerando a inserção profissional e o setor da Economia.
Iniciaremos nossa análise explorando as entrevistas dos jovens pertencentes ao primeiro grupo (nova economia –internet, telecomunicações e informática – e setor bancário pós-reestruturação).
Setor bancário pós-reestruturação
O número de trabalhadores do setor bancário diminuiu em 50% na década de 90 no Brasil (DIEESE, 2002), devido a um processo radical de reestruturação organizacional associada a uma ampla informatização dos serviços. O banco no qual trabalham os entrevistados pertence a um poderoso grupo espanhol. A instituição trocou cinco vezes de nome e de controle de capital nos anos 90, seguindo o fluxo intenso de fusões e aquisições que marca o período do turbo-capitalismo.
A maior parte dos empregados mais velhos foi demitida no processo de reestruturação.
As tarefas bancárias também se transformaram completamente. A maior parte das funções burocráticas foi informatizada e os empregados se tornaram vendedores de produtos. O banco fixa cotas de venda (metas de produtividade) extremamente elevadas para cada agência (imposição coletiva) e para cada “colaborador” (imposição individual).
Uma boa parte do salário depende do sucesso em atingir as cotas, mesmo que parcialmente, uma vez que o salário fixo é pouco atrativo. As ferramentas de gestão ligadas às competências “interpessoais” são largamente utilizadas como estratégia de motivação para o incremento das vendas e como forma de interiorização do discurso de valorização da competição interna à empresa (entre colegas) e externa (entre os bancos). As competências técnicas são percebidas pelos jovens como tendo importância secundária em relação às competências interpessoais para o ingresso no mercado de trabalho
e para o sucesso profissional.
Uma longa carreira em uma mesma empresa não é algo almejado, mesmo acreditando que o banco oferece verdadeiras possibilidades de carreira para aqueles que são “agressivos” na busca do sucesso e que interiorizaram o espírito da empresa. A partir desta lógica, a troca de empregos e a acumulação
de experiências são percebidas como um valor agregado à pessoa no mercado de trabalho.
Os entrevistados foram contratados como estagiários logo no início do curso de administração de empresas. A seleção foi rigorosa e privilegiou os candidatos mais agressivos e competitivos. Eles foram rapidamente promovidos ao cargo de gerente de conta após uma formação intensiva baseada,
sobretudo, em técnicas de motivação. O marketing interno do banco é muito eficaz e eles dizem-se orgulhosos de pertencer ao décimo maior banco do mundo. Eles também se dizem felizes no trabalho, mas ao mesmo tempo afirmam ter de ser felizes para trabalhar. A felicidade faz parte das qualidades
necessárias para ingressar e se manter no mercado.
A competição interna entre os trabalhadores, as taxas elevadas de desemprego no setor e as constantes trocas de controle de capital do banco criaram um clima de insegurança e de instabilidade. Entretanto, este clima é considerado como normal. A lógica central da forma de implicação no trabalho e na sociedade é aquela do poder supremo do indivíduo. As relações sociais produzidas a partir da competição como valor central e da sobrevivência do mais forte/apto/competente são naturalizadas. O indivíduo é considerado todo poderoso e capaz de ultrapassar qualquer dificuldade. O mundo é feito
para aqueles que aproveitam as oportunidades e que se adaptam às transformações impostas pelo mercado. A lógica da seleção natural é utilizada como metáfora do mercado de trabalho.
A forma de se posicionar em relação ao trabalho e à sociedade evidencia-se na reflexão utilizada para responder ao dilema ético. A reflexão constrói-se a partir de uma lógica individualista e instrumental. A decisão de testemunhar ou não em defesa do colega é ligada a um julgamento de custo-benefício.
Tabela 1
Inserção profissional 5
Mercado formal 15
Mercado informal 55
Setor
Banco pós-reestruturação 20
Nova economia (telefonia celular/Internet/informática) 10
Economia solidária: galpão de reciclagem 30
Projeto comunitário: telecentro 10
Participantes
Todos os entrevistados acreditam que os colegas não testemunhariam. No caso de se colocar na situação, aqueles poucos que testemunhariam, o fariam porque crêem que a decisão os ajudará a galgar alguns degraus na carreira dentro da empresa porque a ética está na moda. Nas respostas dos
jovens, percebe-se um cinismo que se integra como regra de conduta em relação aos colegas de trabalho e como norma de sobrevivência nas estratégias de inserção na sociedade.
A maior parte dos jovens não é sindicalizada. O sindicato, na opinião deles, não tem um papel importante na defesa dos direitos conquistados, pois não tem força no enfrentamento direto com as empresas e porque deturpou seu objetivo tornando-se excessivamente político. Esta idéia, que está fortemente ancorada no imaginário, contrasta com a história do sindicato do setor que foi um dos mais fortes na história brasileira recente.
Os jovens não se interessam pela política. Os entrevistados mais convencidos da verdade contida nas prescrições do discurso de gestão são os mais individualistas nas formas de inserção no trabalho e na sociedade. Os sentimentos e as lógicas evidenciados pela análise das entrevistas denotam certa ambigüidade quando a temática da entrevista girava em torno dos problemas sociais como a miséria,
a violência, a pobreza, ou mesmo, a possibilidade de pensar o futuro no longo prazo. Entretanto, invariavelmente, após um momento de hesitação, a lógica do indivíduo todo-poderoso impunha-se como uma defesa psíquica contra as mazelas do contexto social.
Existem algumas diferenças importantes no mercado de trabalho das profissões ligadas à Internet, à informática e à telefonia. Estas diferenças referem-se às características e à história de cada setor. O mercado da telefonia móvel é mais tradicional, uma vez que, num primeiro momento, ele estruturou-se a partir das empresas de telefonia fixa através da privatização das estatais, abrindo-se, somente num segundo momento, ao mercado internacional. A base do capital das empresas do setor é, hoje, multinacional. O mercado estava em expansão até o fim de 2001. Após, a previsão de crescimento
foi revista e hoje o mercado é mais competitivo. Muitas das empresas já iniciaram os processos de reestruturação com fusão dos grupos iniciais, processo esse acompanhado dos habituais enxugamentos de pessoal.
As estatísticas públicas para o setor da informática e Internet não se adaptaram às ocupações da nova economia e ainda é difícil compreender o cenário do mercado de trabalho. As análises parciais existentes indicam que ainda existe demanda de profissionais no setor, sobretudo daqueles com alta qualificação técnica. O setor hoje se compõe de uma diversidade muito grande de formas de inserção profissional, que vão da pequena empresa local às grandes empresas multinacionais, passando pelos profissionais autônomos que prestam serviço na forma de assessoria como profissionais liberais, pelo setor público e até por formas de inserção precárias no mercado informal. O setor ainda não é dominado pelas grandes empresas multinacionais como é o caso da telefonia móvel. Ainda como uma marca diferencial importante, podemos dizer que os profissionais da informática encontram uma grande possibilidade de mobilidade em múltiplas áreas da economia, devido à onipresença da informática.
O profissional típico do setor é um jovem com diploma universitário na área de informática, engenharia ou em administração de empresas. A adesão aos novos discursos de gestão é mais freqüente nos profissionais ligados à área de administração/marketing do que naqueles que se ocupam mais exclusivamente da área técnica. Os profissionais técnicos mantêm certa distância moral da lógica competitiva das empresas.
As trocas de conhecimento tecnológico, as quais fazem parte da necessidade permanente de atualização, os impelem a valorizar o trabalho em equipe. São jovens que se identificam com a lógica do empreendedorismo e acreditam poder construir uma carreira baseada nas competências pessoais.
Entretanto, não estão seguros para realizar um planejamento do futuro no longo prazo. A velocidade das mudanças no setor impede uma visão clara do futuro. Eles estão habituados às mudanças e naturalizaram os riscos associados à carreira. O desenvolvimento da competência técnica e a atualização
permanente são as armas utilizadas para enfrentar as incertezas do futuro.
No setor da telefonia, uma característica marcante é a identificação com o marketing externo das empresas. A identificação com a imagem publicitária altamente utilizada pela companhia é motivo de orgulho e, dentro desta mesma lógica, os profissionais reconhecem que a relação com esta é dotada do mesmo caráter efêmero da publicidade. Eles jogam o jogo da empresa e dizem que se deve ficar no mesmo emprego somente o tempo necessário para “agregar valor” à carreira.
A referência às competências emocionais (ou interpessoais) é uma constante nas características descritas como necessárias para ingressar no mercado de trabalho. Além das competências emocionais e técnicas, o domínio de uma ou duas línguas estrangeiras é considerado essencial. O inglês, sobretudo com relação à área técnica, e o espanhol em razão da língua matriz da companhia (a qual detém a maior
fatia do mercado no Rio Grande do Sul), além do interesse comercial no Mercosul.
A resolução do dilema ético acompanha as diferenças já descritas entre os profissionais técnicos e aqueles ligados ao marketing e à administração.
Os analistas de sistema crêem no valor da verdade e da honestidade nas relações de trabalho. Eles se dizem prontos a deixar uma empresa na qual não exista uma relação de confiança entre colegas. Esta resposta se associa às possibilidades de mobilidade dentro de um mercado que ainda necessita de profissionais qualificados. Além deste fato, a confiança é a base de um trabalho em rede que depende da cooperação entre os membros da equipe.
Os profissionais ligados aos setores de administração e marketing, por sua vez, são os mais contaminados pela razão cínica já descrita na análise dos jovens do setor bancário.
Outro fator importante que as entrevistas denotam é a ruptura com os valores morais associados ao trabalho, característicos da geração dos pais destes jovens. Nada do que eles aprenderam com relação ao trabalho é válido para o cotidiano. O mundo mudou completamente e os jovens trabalham em uma área não imaginada pelos pais. É um mundo novo entendido como pleno de possibilidades, mas, ao mesmo tempo, muito incerto e muito injusto. A solução encontrada para a busca da felicidade não é diferente daquela encontrada nos outros grupos de jovens, ou seja, a busca individual do sucesso.
O grupo é composto por 10 jovens de até 30 anos, divididos em dois subgrupos. O primeiro é composto por trabalhadores de um galpão de reciclagem localizado em um bairro da região periférica de São Paulo. O segundo subgrupo é formado por voluntários que se engajaram em um projeto da Prefeitura Municipal, denominado Telecentro, e desenvolvem um projeto de monitoria em computação para moradores da comunidade. Os subgrupos diferem no nível de escolaridade: os recicladores não concluíram o ensino fundamental, enquanto os monitores de informática têm o nível médio completo, além de curso técnico em processamento de dados.
Ambos os projetos, embora desenvolvidos por membros da comunidade local, são financiados parcialmente por verbas municipais. O galpão de reciclagem foi criado a partir da mobilização da população dentro do Orçamento Participativo da cidade. A prefeitura de São Paulo, via Secretaria Municipal da Indústria e Comércio, disponibilizou o prédio do empreendimento assim como as prensas utilizadas para a compactação do lixo.
O projeto do Telecentro também conta com uma parceria com a Companhia de Processamento de Dados do Município de São Paulo, que disponibiliza os computadores, sua manutenção e suporte aos monitores, além de bolsas para dois menores aprendizes e um monitor adulto. Os outros monitores envolvidos trabalham voluntariamente. A comunidade contribui com um local para o desenvolvimento
do projeto e com a arrecadação dos encargos para o pagamento de água, luz, limpeza e segurança do mesmo. Os voluntários encontram-se desempregados ou prestam serviços no mercado informal.
Os entrevistados demonstram orgulho das organizações em que trabalham, justificando a importância das mesmas, no primeiro subgrupo devido à função ecológica da reciclagem do lixo e, no segundo, pela difusão do conhecimento na informática. Entretanto, o ingresso dos jovens nos empreendimentos não se dá primordialmente pela identificação com a questão ideológica, mas pela falta de alternativa econômica e na perspectiva de que estes vínculos sejam uma passagem transitória até conseguirem um emprego no mercado formal.
Tal desvinculação com o projeto de economia solidária pode ser observada na alienação em relação ao funcionamento do galpão e ao processo de produção como um todo. A execução do trabalho é feita de forma muito semelhante aos moldes de uma empresa de organização do trabalho taylorista, excetuando-se a divisão dos lucros (embora aqui eles também não acompanhem os preços de mercado e as negociações para venda do material separado para reciclagem).
Da mesma forma, os jovens do Telecentro não vêem o mesmo como uma oportunidade de inclusão digital da população, mas como uma forma de afastamento dos jovens da comunidade do envolvimento com as drogas ou com a violência. O lugar desse projeto em suas vidas está bastante ligado à busca de novas oportunidades de emprego na área de informática.
Os entrevistados dos dois subgrupos almejam conseguir empregos em postos de trabalho tradicionais com carteira assinada e com as garantias a ela associadas. Eles acreditam na possibilidade de permanecer por um longo tempo em uma empresa, sendo poucos os que prefeririam desenvolver um negócio próprio. Contudo, os jovens descrevem o perfil de um trabalhador com poucas chances no mercado de forma muito semelhante às suas próprias características, como eles mesmos dizem: baixa escolaridade, má aparência e cor negra.
A importância do trabalho é justificada como forma de garantir o sustento, como valor moral e recurso para “distrairse” dos problemas pessoais/sociais. Os jovens reconhecem a escassez de vagas no mercado atual. No entanto, consideram a escolaridade mais alta como condição suficiente para encontrar um bom emprego. A felicidade almejada é representada pelos vínculos de proximidade e o desejo de sair da situação de vulnerabilidade permanente, podendo desta forma estar cercado de pessoas amigas, ter segurança e saúde pessoal e familiar. Os desejos futuros envolvem melhorar o padrão de vida, conseguir um trabalho mais qualificado e adquirir bens próprios, como casa e, em alguns casos, carro.
A impossibilidade de planejar o futuro ancora-se nas decepções acumuladas na não concretização de planos anteriores. Os trabalhadores almejam que suas esperanças não alcançadas sejam realizadas pelos filhos. A competição e o individualismo são valores presentes no discurso sobre as possibilidades de ingresso no mercado de trabalho. Da mesma forma, fazer a opção pela omissão (não testemunhar) na resolução do dilema ético é vista como a única alternativa viável. Embora seja considerada como uma
opção incorreta em termos morais, esta é justificada pela necessidade de sobrevivência. Tal resposta é mais característica daqueles jovens cuja trajetória de vida é marcada por um maior grau de vulnerabilidade social, a qual pode ser associada à falta de suportes sociais e familiares, como é o caso dos trabalhadores do galpão de reciclagem e dos jovens desempregados que são voluntários no Telecentro.
Conclusão: O exercício de comparação entre os relatos dos trabalhadores da economia solidária e dos jovens da nova economia evidencia de forma clara o fosso social brasileiro. As diferenças de recursos e competências pessoais adquiridos ao longo da vida, associadas à ausência e/ou fragilidade dos suportes
sociais, nos possibilita construir um esquema explicativo das desigualdades que marcam as possibilidades de inserção no mercado de trabalho.
Encontramos nos relatos regularidades ligadas aos dispositivos associados ao novo discurso de gestão, os quais agenciam os processos de subjetivação dos jovens dos setores bancário e da nova economia. Esse discurso constrói o eu ideal em torno de um indivíduo onipotente e capaz de enfrentar de forma solitária a reestruturação organizacional e tecnológica associada às transformações do capitalismo. A
construção desse eu ideal produz efeitos nas formas de reflexão ética utilizadas pelos jovens nas decisões que marcam sua inserção no laço social.
A adesão completa ao discurso hegemônico de gestão acompanha-se de uma adesão à lógica do darwinismo social e do liberalismo selvagem. A ilusão individualista, o reino do privado e da competição transformaram-se em modos de regulação da vida.
Esses jovens se enquadram no perfil descrito pelo novo discurso gerencial como trabalhadores flexíveis, móveis, empreendedores e adaptados às exigências do mercado de trabalho pós-terceira revolução industrial e globalizado. Estes trabalhadores atravessaram processos de subjetivação inundados pelo regime de verdade referente ao trabalho que configura um contexto espaço-temporal distinto
daquele da modernidade. Encontramos nas entrevistas uma tensão permanente que, por um lado, evidencia uma pretensa maior autonomia, liberdade e possibilidades de escolha com relação aos projetos de vida e, pelo outro, uma transformação radical em relação à segurança ontológica e à vivência de uma temporalidade que permitiu à geração dos pais, o planejamento da vida e a construção do caráter – no sentido que Sennet (1998) atribui a este termo. Nesta direção, Gauchet (1998) afirma que estaríamos entrando em uma nova fase, na qual assistimos ao surgimento de uma “personalidade” contemporânea desconectada simbólica e cognitivamente do todo social. Um indivíduo para o qual o conjunto da sociedade não faz sentido. Pela primeira vez na história teria sido possível produzir um indivíduo que ignora que vive em sociedade, que não comporta um senso de responsabilidade para
com as regras sociais. Este hiperindividualismo conduziria a um sentimento de não ser nada e não estar em lugar nenhum.
A partir de uma perspectiva semelhante, Enriquez (1997) afirma que a questão ética tornou-se central na nossa sociedade, pois o mal-estar de nossa época é reforçado pelo aumento do individualismo. Este se apresenta sob uma forma narcisista, que é conseqüência da impossibilidade de pensar o futuro e,
por esta razão, produz uma incontrolável vontade de aproveitar os momentos da forma mais intensa e imediata possível.
Esta perspectiva de um presente ansioso e angustiado demarca a ausência de princípios que forneçam sentido para a vida em comum, apontando assim para a fragilidade do laço social e, ao mesmo tempo, para o excesso de individualismo causado pela destruição dos valores da modernidade e pela dissociação dos laços centrados no trabalho. Sem, entretanto, que esses valores tenham sido substituídos por qualquer outro que não seja o consumo da própria existência. Ortega (1999) afirma que é somente o encontro e o respeito pelo outro na sua alteridade absoluta e o reconhecimento da finitude do ser e dos limites de cada ser que permitem destruir com a tirania do eu e possibilitam a solidariedade.
Na visão de todos os jovens entrevistados, o mundo se transformou profundamente e ele é mais injusto, mais violento, mais desigual. Entretanto, esta constatação não é acompanhada por qualquer sentimento de responsabilidade para com a transformação do contexto social. Aqueles que aderem de forma totalitária ao discurso da aventura empreendedora e do indivíduo conquistador (Ehrenberg, 1996) são aqueles que demandam ao Estado medidas duras de repressão à criminalidade sem se perguntar das causas do incremento da violência. Aqueles que são mais críticos com relação ao discurso do desempenho individual/competição como valor central, ou que, pelo menos, crêem na construção de regras e de limites para os jogos do mercado, defendem a necessidade do investimento em políticas públicas em saúde e educação.
De acordo com Castel (1998), a nova ordem ameaça uma série de conquistas que qualificaram o locus societário dos trabalhadores e possibilitaram associar ao trabalho o acesso à proteção social, representada pela seguridade social e pelas políticas públicas que afastaram os trabalhadores do imperativo da necessidade. Castel demonstra a construção da categoria dos supranumerários e dos desfiliados como produto da fratura (ou prenúncio desta) que assombra as sociedades contemporâneas e empurra para o primeiro plano as temáticas da precariedade, do desterro e da desfiliação. Aponta
também para homologias de posição entre os inúteis para o mundo, representados pelos vagabundos do período anterior à revolução industrial, e as diferentes categorias de inempregáveis de hoje.
Nos relatos dos jovens que participam de projetos ligados à economia solidária, encontramos a lógica da sobrevivência como ordenadora do discurso. A seleção “natural” se apresenta na defesa da competição como única maneira para conseguir se manter vivo. Embora esse subgrupo tenha um discernimento acerca do contexto de vulnerabilidade em que vive e não se identifique com o liberalismo como solução para seus problemas, o mesmo afirma que não é possível ter uma renda satisfatória para sustentar suas necessidades dentro dos movimentos em que se insere. Assim, mesmo tendo uma visão crítica acerca da importância do papel regulador do governo no mercado e pela via da seguridade social, os jovens não conseguem efetivar um projeto que busque transformar a configuração social. Sua vinculação aos empreendimentos solidários é vista como temporária e o emprego é considerado um quebra-galho
para diminuir sua condição precária, mas que será substituído prontamente caso surja uma oportunidade de emprego melhor remunerado e estável. A ambição dos jovens centra-se no sonho de conseguir uma posição no mercado formal que lhes permita ter segurança.
Nossa análise indica que os projetos de economia solidária estudados não se apresentam como real opção aos trabalhadores no mercado de trabalho. Esses funcionam apenas como alternativa ao desemprego, não se constituindo efetivamente como um contraponto à posição central ocupada
pelas atuais formas de gestão.
As transformações contemporâneas do capitalismo têm conseqüências para a estrutura e dinâmica da coesão social em todo o mundo. As novas guerras, a violência urbana crescente e o terrorismo são bons exemplos dos efeitos da nova configuração da sociedade sob a égide do mercado. Entretanto, nas sociedades mais desiguais e com economias mais frágeis, como é o caso do Brasil, as conseqüências são mais duras, uma vez que a tarefa de diminuição das desigualdades e a construção de uma sociedade mais igualitária depende de transformações nas formas de implicação no laço social. Se, como constatamos nas entrevistas com os jovens, as formas de adesão ao discurso de gestão acompanha as formas de implicação no laço social, estamos caminhando na direção contrária de um pacto social que visa à construção de uma sociedade mais justa.
O exemplo que segue, mesmo se tratando de um relato particularmente forte, ilustra bem nosso argumento. Entrevistamos um jovem diretor de uma empresa de informática, que nos disse: “Eu não gosto de ser brasileiro, acho que nasci no lugar errado. Eu não consigo ter patriotismo pelo Brasil porque eu não vejo ele me ajudando em nada, estou comprando o meu passaporte para a minoria.”
Referências
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Sennett, R. (1998) The corrosion of character: personal consequences of work in the new capitalism. Nova York: Norton.
sábado, 14 de maio de 2011
NÓS QUE AQUI ESTAMOS POR VÓS ESPERAMOS
“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos
para os adeuses(...)”
Vinicius de Moraes
Como escrever sobre este filme que tanto me impressionou. As primeiras cenas de "Nós que aqui estamos por vós esperamos" (1999) me chegaram aos sentidos através de um programa de televisão. Fragmentos em preto-e-branco, imagens do século XX... e o título! Só o título já seria suficiente para me instigar a curiosidade: nós quem? vós quem? por que esperam? Mas o fato é que apenas agora o desejo materializa-se em palavras, e apenas agora o desejo tornou-se insuportável, porque escrever talvez seja isto: uma catarse. Enfim, recentemente tive a oportunidade de assistí-lo na íntegra graças a uma antiga paixão pela História ...
Nós que aqui estamos por vós esperamos é a frase, sentença que assusta, que o diretor Marcelo Masagão encontrou cunhada no portal de entrada de um velho cemitério. E aconteceu aquela coisa tão comum nas artes: o acaso buscou perpetuar-se. É esta sentença que nos alerta, ou melhor, que nos devolve o senso de humildade, que marca a proposta do filme, que é a de discutir a banalização da morte e, por extensão, a banalização da vida. E Masagão consegue então construir um poema visual - quase não há palavras - pois o filme que nos apresenta constrói-se de breves momentos do século XX perpetuados pelo registro perspicaz, ou apenas incidental, de velhas câmeras e anônimos cineastas do acaso. Uma profusão de imagens que se sucedem, envolvem-nos em uma trama fortuitamente tecida e que desafiam àqueles que crêem no plano da vida, na linearidade dos acontecimentos. Imagens que nos transportam da dor, do sentimento de vergonha em relação ao ser humano, ao encantamento, ao deslumbramento, pois é humano, e sempre "demasiadamente humano", o ódio e o amor. Portanto, não é um filme pessimista, é um poema, e como tal, desequilibra. E o primeiro desequilíbrio que me esbofeteou o rosto foi o de perceber que aqueles que via na tela, pessoas comuns que possuíam uma data de nascimento, um nome e, quiçá, sonhos, eram pessoas comuns! Eram, sim, e que contribuíram, consciente ou inconscientemente, na construção deste mundo que com tantos prazeres e desprazeres nos brinda hoje. Pessoas esfalfadas no cansaço provocado pelo sempre tão importante trabalho; pessoas felizes, que sorriam, gargalhavam até, ou pessoas desesperadas, naufragadas em prantos. O século XX foi estas pessoas e aquilo que sonharam ou deixaram de sonhar!
Não pude permanecer indiferente ao filme, e também quis elencar as imagens que me marcaram neste século encerrado. Apesar de relativamente jovem e de ter efetivamente vivido apenas o último quartel do século passado, algumas cenas permanecem indelevelmente marcadas em minha memória, tatuadas em minhas retinas, como a do jovem chinês que enfrentou uma coluna de tanques na Praça da Paz Celestial ou a da enorme multidão que se lançava sobre um punhado de arroz lançado no solo árido de sonhos da Etiópia. Lembro-me, e ainda com assombro, da inenarrável massa de homens de torso nu, qual formigas, a subir e descer a enorme cratera de Serra Pelada em busca de ouro; bem como não posso esquecer do cheiro e da consistência da tinta com a qual marquei meu rosto em protesto ao governo Collor. Lutei contra os últimos suspiros da ditadura militar brasileira, uma amarga brisa, era quase-criança, percebia meus brinquedos e livros, mas muito mais do medo que se ia nos rostos de alguns, e por isso me soava quase mitológico; lembrar dos tempos em que estudantes como eu se lançaram às ruas em protesto, empunhando nas mãos uma bandeira e acalentando no peito um desejo. Quando novamente pintei meu rosto e me juntei aos muitos que cantavam "Para não dizer que não falei das flores", a brisa transformou-se em furacão, e então pude entender aquilo que antes só me tocara de leve. Este entendimento pleno provocou-me cicatrizes que dificilmente serão apagadas - e nem quero que se apaguem!
Muitas imagens carrego, algumas de antes de ter nascido, como a do corpo franzino de Gandhi que arrastava atrás de si uma Índia inteira e que unia os opostos através da sua fome. Como esquecer Gandhi?! E como esquecer Chico Mendes, tão covardemente morto? "Nós que aqui estamos por vós esperamos", e um dia também esperaremos nós, e que sejamos lembrados por aquilo que fizemos! Ao "esperar" não quero que lembrem o século XXI pelas torres que tombaram, nem pelos corpos insepultos dos palestinos tão covardemente assassinados e dos judeus vitimados pelo ódio. Não quero que se nos lembrem pelo sangue que manchou a pequena ilha do Timor (e que ainda mancha), mas pelo aroma do sândalo que voltará a recender na terra "em que o Sol nasce primeiro". Ainda há tempo, o século apenas inicia, e sonhar que o silêncio dos funerais pode ser substituído pelo silêncio daquele que ouve e, ouvido, sabe compreender e, sabendo compreender, aprende a conviver, ainda é possível.
Trata-se de um filme surpreendente. Vi, gostei, recomendo. Mas do que vi, senti e refleti que não devemos banalizar a vida. Perdas são inevitáveis. Doem menos com o tempo, mas doerão para sempre. Minha convicção é de que quem me esperou e amou em vida, espera que eu seja feliz, mesmo com saudades, mesmo triste com a ausência física de cada um e cada uma. E que não preciso de data especial para lembrar, para que doa menos, para sentir saudades...
Não precisamos temer. Eles se foram, nós iremos. A cada um o seu fardo, nem mais nem menos.
"Nós que aqui estamos por vós esperamos", também esperaremos... E que o próximo filme possa mostrar que a banalização da vida ensinou-nos a valorizá-la. Afinal, o século XXI seremos nós, nossos prantos e nossos sorrisos, nossos sonhos e aquilo que deixamos de sonhar.
Transcrevo aqui parte da ótima resenha de Nicolau Sevcenko, Professor de História da Cultura USP-SP, encontrada em : http://www2.uol.com.br/filmememoria
“Com base na história e na psicanálise, Marcelo Masagão compôs um complexo mosaico de memórias do século 20. Seu recurso à justaposição de imagens e seqüências fragmentadas, ao invés de uma narrativa contínua e linear, capturou o âmago mesmo desse tempo turbulento. A irrupção nele da cultura moderna indicava precisamente isso: a ruptura de todos os elos com o passado; o imperativo da supremacia tecnológica; a penetração ampla e profunda em todas as dimensões, macro e micro, da matéria, da vida e do universo; o anseio da aceleração, da intensidade, e da conectividade; a abolição dos limites do tempo e do espaço. O que mais marca este momento, portanto é justamente essa multiplicação de energias, a pluralidade das sensações e das experiências, o esfacelamento da consciência e a interação com os mais diversificados contextos.(...)
Sensível e ponderado foi também o seu modo de jogar com as perspectivas de gentes simples e anônimas, nascidas no torvelinho das grandes transformações, dragadas pelas engrenagens dos gigantescos complexos industriais, as linhas de montagem, o lazer massificado, a publicidade, os apelos do consumo, as alegrias da dança e do corpo liberado, os rigores trágicos das crises e da guerra. Dando nome a essas criaturas minúsculas, ele ao mesmo tempo devolve o quinhão de humanidade que lhes foi negado, como destaca o modo pelo qual a dinâmica social opera através da modulação dos comportamentos, a rotinização do cotidiano e a galvanização das mentes.
Dentre a massa de personagens anônimos ressaltam alguns rostos e nomes famosos: artistas, cientistas, intelectuais, líderes políticos e espirituais. Eles funcionam como chaves que articulam tendências de ampla configuração em diferentes níveis da experiência social e cultural. Catalisando processos em andamento, eles ao mesmo tempo dão voz às minorias silenciosas, como sinalizam alternativas ou consolidam estados latentes de aspiração, conformação, revolta ou ressentimento. (...)
A singela fórmula " nós que aqui estamos, por vós esperamos ", gravada no portal do pequeno cemitério de província, é outro dos achados cintilantes deste filme. Por um lado, ela oferece um contraponto tocante às ambições grandiloqüentes do século 20 e de sua modernidade. Evoca a fragilidade e os estreitos limites da condição humana, os quais têm sido sistematicamente ignorados por poderes e ambições que atravessaram o período impondo demandas e sacrifícios exorbitantes. Por outro lado, apresentada no final do filme, a frase ressoa e opera como um feixe que conecta todos os fragmentos dispersos, nos transportado para dentro daquele mundo, como mais uma memória que irá se somar a esse painel dramático, ligada a cada detalhe dele por vínculos de solidariedade e compaixão. Os temas compulsivos e recursivos das músicas de Win Mertens funcionam como o nexo emotivo que, se instila ritmo e vibração às imagens, também nos põe em sintonia com os sonhos profundos que animaram nossos irmãos e irmãs nessa aventura histórica ainda mal entendida e certamente inacabada, mas que obras como essa nos ajudam a vislumbrar e a compreender melhor. Creio que é isso também que eles, lá na sombra discreta do cemitério, esperam de nós.”
Ficha técnica
Filme: Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos
Brasil 1998; 73 min
Direção: Marcelo Masagão.
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos
para os adeuses(...)”
Vinicius de Moraes
Como escrever sobre este filme que tanto me impressionou. As primeiras cenas de "Nós que aqui estamos por vós esperamos" (1999) me chegaram aos sentidos através de um programa de televisão. Fragmentos em preto-e-branco, imagens do século XX... e o título! Só o título já seria suficiente para me instigar a curiosidade: nós quem? vós quem? por que esperam? Mas o fato é que apenas agora o desejo materializa-se em palavras, e apenas agora o desejo tornou-se insuportável, porque escrever talvez seja isto: uma catarse. Enfim, recentemente tive a oportunidade de assistí-lo na íntegra graças a uma antiga paixão pela História ...
Nós que aqui estamos por vós esperamos é a frase, sentença que assusta, que o diretor Marcelo Masagão encontrou cunhada no portal de entrada de um velho cemitério. E aconteceu aquela coisa tão comum nas artes: o acaso buscou perpetuar-se. É esta sentença que nos alerta, ou melhor, que nos devolve o senso de humildade, que marca a proposta do filme, que é a de discutir a banalização da morte e, por extensão, a banalização da vida. E Masagão consegue então construir um poema visual - quase não há palavras - pois o filme que nos apresenta constrói-se de breves momentos do século XX perpetuados pelo registro perspicaz, ou apenas incidental, de velhas câmeras e anônimos cineastas do acaso. Uma profusão de imagens que se sucedem, envolvem-nos em uma trama fortuitamente tecida e que desafiam àqueles que crêem no plano da vida, na linearidade dos acontecimentos. Imagens que nos transportam da dor, do sentimento de vergonha em relação ao ser humano, ao encantamento, ao deslumbramento, pois é humano, e sempre "demasiadamente humano", o ódio e o amor. Portanto, não é um filme pessimista, é um poema, e como tal, desequilibra. E o primeiro desequilíbrio que me esbofeteou o rosto foi o de perceber que aqueles que via na tela, pessoas comuns que possuíam uma data de nascimento, um nome e, quiçá, sonhos, eram pessoas comuns! Eram, sim, e que contribuíram, consciente ou inconscientemente, na construção deste mundo que com tantos prazeres e desprazeres nos brinda hoje. Pessoas esfalfadas no cansaço provocado pelo sempre tão importante trabalho; pessoas felizes, que sorriam, gargalhavam até, ou pessoas desesperadas, naufragadas em prantos. O século XX foi estas pessoas e aquilo que sonharam ou deixaram de sonhar!
Não pude permanecer indiferente ao filme, e também quis elencar as imagens que me marcaram neste século encerrado. Apesar de relativamente jovem e de ter efetivamente vivido apenas o último quartel do século passado, algumas cenas permanecem indelevelmente marcadas em minha memória, tatuadas em minhas retinas, como a do jovem chinês que enfrentou uma coluna de tanques na Praça da Paz Celestial ou a da enorme multidão que se lançava sobre um punhado de arroz lançado no solo árido de sonhos da Etiópia. Lembro-me, e ainda com assombro, da inenarrável massa de homens de torso nu, qual formigas, a subir e descer a enorme cratera de Serra Pelada em busca de ouro; bem como não posso esquecer do cheiro e da consistência da tinta com a qual marquei meu rosto em protesto ao governo Collor. Lutei contra os últimos suspiros da ditadura militar brasileira, uma amarga brisa, era quase-criança, percebia meus brinquedos e livros, mas muito mais do medo que se ia nos rostos de alguns, e por isso me soava quase mitológico; lembrar dos tempos em que estudantes como eu se lançaram às ruas em protesto, empunhando nas mãos uma bandeira e acalentando no peito um desejo. Quando novamente pintei meu rosto e me juntei aos muitos que cantavam "Para não dizer que não falei das flores", a brisa transformou-se em furacão, e então pude entender aquilo que antes só me tocara de leve. Este entendimento pleno provocou-me cicatrizes que dificilmente serão apagadas - e nem quero que se apaguem!
Muitas imagens carrego, algumas de antes de ter nascido, como a do corpo franzino de Gandhi que arrastava atrás de si uma Índia inteira e que unia os opostos através da sua fome. Como esquecer Gandhi?! E como esquecer Chico Mendes, tão covardemente morto? "Nós que aqui estamos por vós esperamos", e um dia também esperaremos nós, e que sejamos lembrados por aquilo que fizemos! Ao "esperar" não quero que lembrem o século XXI pelas torres que tombaram, nem pelos corpos insepultos dos palestinos tão covardemente assassinados e dos judeus vitimados pelo ódio. Não quero que se nos lembrem pelo sangue que manchou a pequena ilha do Timor (e que ainda mancha), mas pelo aroma do sândalo que voltará a recender na terra "em que o Sol nasce primeiro". Ainda há tempo, o século apenas inicia, e sonhar que o silêncio dos funerais pode ser substituído pelo silêncio daquele que ouve e, ouvido, sabe compreender e, sabendo compreender, aprende a conviver, ainda é possível.
Trata-se de um filme surpreendente. Vi, gostei, recomendo. Mas do que vi, senti e refleti que não devemos banalizar a vida. Perdas são inevitáveis. Doem menos com o tempo, mas doerão para sempre. Minha convicção é de que quem me esperou e amou em vida, espera que eu seja feliz, mesmo com saudades, mesmo triste com a ausência física de cada um e cada uma. E que não preciso de data especial para lembrar, para que doa menos, para sentir saudades...
Não precisamos temer. Eles se foram, nós iremos. A cada um o seu fardo, nem mais nem menos.
"Nós que aqui estamos por vós esperamos", também esperaremos... E que o próximo filme possa mostrar que a banalização da vida ensinou-nos a valorizá-la. Afinal, o século XXI seremos nós, nossos prantos e nossos sorrisos, nossos sonhos e aquilo que deixamos de sonhar.
Transcrevo aqui parte da ótima resenha de Nicolau Sevcenko, Professor de História da Cultura USP-SP, encontrada em : http://www2.uol.com.br/filmememoria
“Com base na história e na psicanálise, Marcelo Masagão compôs um complexo mosaico de memórias do século 20. Seu recurso à justaposição de imagens e seqüências fragmentadas, ao invés de uma narrativa contínua e linear, capturou o âmago mesmo desse tempo turbulento. A irrupção nele da cultura moderna indicava precisamente isso: a ruptura de todos os elos com o passado; o imperativo da supremacia tecnológica; a penetração ampla e profunda em todas as dimensões, macro e micro, da matéria, da vida e do universo; o anseio da aceleração, da intensidade, e da conectividade; a abolição dos limites do tempo e do espaço. O que mais marca este momento, portanto é justamente essa multiplicação de energias, a pluralidade das sensações e das experiências, o esfacelamento da consciência e a interação com os mais diversificados contextos.(...)
Sensível e ponderado foi também o seu modo de jogar com as perspectivas de gentes simples e anônimas, nascidas no torvelinho das grandes transformações, dragadas pelas engrenagens dos gigantescos complexos industriais, as linhas de montagem, o lazer massificado, a publicidade, os apelos do consumo, as alegrias da dança e do corpo liberado, os rigores trágicos das crises e da guerra. Dando nome a essas criaturas minúsculas, ele ao mesmo tempo devolve o quinhão de humanidade que lhes foi negado, como destaca o modo pelo qual a dinâmica social opera através da modulação dos comportamentos, a rotinização do cotidiano e a galvanização das mentes.
Dentre a massa de personagens anônimos ressaltam alguns rostos e nomes famosos: artistas, cientistas, intelectuais, líderes políticos e espirituais. Eles funcionam como chaves que articulam tendências de ampla configuração em diferentes níveis da experiência social e cultural. Catalisando processos em andamento, eles ao mesmo tempo dão voz às minorias silenciosas, como sinalizam alternativas ou consolidam estados latentes de aspiração, conformação, revolta ou ressentimento. (...)
A singela fórmula " nós que aqui estamos, por vós esperamos ", gravada no portal do pequeno cemitério de província, é outro dos achados cintilantes deste filme. Por um lado, ela oferece um contraponto tocante às ambições grandiloqüentes do século 20 e de sua modernidade. Evoca a fragilidade e os estreitos limites da condição humana, os quais têm sido sistematicamente ignorados por poderes e ambições que atravessaram o período impondo demandas e sacrifícios exorbitantes. Por outro lado, apresentada no final do filme, a frase ressoa e opera como um feixe que conecta todos os fragmentos dispersos, nos transportado para dentro daquele mundo, como mais uma memória que irá se somar a esse painel dramático, ligada a cada detalhe dele por vínculos de solidariedade e compaixão. Os temas compulsivos e recursivos das músicas de Win Mertens funcionam como o nexo emotivo que, se instila ritmo e vibração às imagens, também nos põe em sintonia com os sonhos profundos que animaram nossos irmãos e irmãs nessa aventura histórica ainda mal entendida e certamente inacabada, mas que obras como essa nos ajudam a vislumbrar e a compreender melhor. Creio que é isso também que eles, lá na sombra discreta do cemitério, esperam de nós.”
Ficha técnica
Filme: Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos
Brasil 1998; 73 min
Direção: Marcelo Masagão.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Confiança na Política e na História
A confiança no poder salvador da política e no processo da história rumo a uma direção identificável desapareceu. A procura de uma vida coletiva isenta de pavores e de sofrimentos afastou-se dos projetos políticos.
Com o afastamento das perspectivas de salvação mediante a política, o ser humano está procurando outros caminhos, estabelecendo ou restabelecendo diversas estratégias. Duas delas são as mais difusas e significativas.
A primeira é aquela de buscar, de novo e intensamente, a ausência de pavores e de sofrimentos em um outro mundo, no céu, sentindo, porém que é ao mesmo tempo cidadão e estrangeiro nesta terra, na qual deve eventualmente tomar conta, mas considerá-la apenas como uma etapa provisória da caminhada rumo à ausência plena de pavores e de sofrimentos.
Diminui o “sentido histórico” e aumenta a necessidade do “absoluto”. Conseqüência da perda da crença que o curso da história se orienta espontaneamente para o melhor. No passado, a primazia do sentido da história durou enquanto foi garantida pela confiança numa reserva áurea de “progresso” que se acumulou no decurso dos séculos.
Todavia, é paradoxal, ao menos na aparência, o facto que hoje vem perdendo credibilidade a idéia de uma conspiração dos eventos rumando para um fim comum. Isto estaria acontecendo justamente no momento em que o mercado mundial e o sistema das comunicações põem em contato rápida e facilmente todos os povos da terra, no momento em que a rede de interdependências globais se torna cada vez mais densa.
Pela primeira vez o ser humano está virtualmente em condição de captar a história contemporânea como um todo. Mesmo assim ele é obrigado a registrar uma espécie de “estrabismo perceptivo”, considerando que, por um lado, assiste o avanço da “globalização” e, por outro lado, o fechamento das “culturas” em si próprias e à sua vontade de evitar a homologação planetária.
Hoje, pode-se afirmar que a queda do sentido histórico depende do facto que se perdeu de vista qualquer processo unitário da história sob a orientação de um protagonista bem identificado. Desapareceram os critérios de seleção implícitos nos modelos que interpretavam o processo histórico como processo unitário guiado por “macro-sujeitos”.
A ausência de pavores e de sofrimentos é procurada na vontade renascida de resguardar-se da tirania do curso do mundo, no desejo por vezes de ignorar os contextos mais amplos em que se vive. Tal projeto, porém, resulta inviável, além de inútil. Jamais conseguiremos tornar-nos independentes do envolvimento com os eventos “externos”.
Por isso, as técnicas de isolamento que visam desvincular-nos totalmente dos condicionamentos históricos são tão funestas quanto aquelas que procuram mergulhar o ser humano nos eventos a ponto de levá-lo a perder a autonomia individual.
A segunda estratégia, ao contrário, consiste em mergulhar profundamente nas satisfações e nos prazeres da vida presente. Percebendo a vida como contingente e fugidia (onde tudo se acaba) o ser humano faz tudo para se saciar aproveitando todas as ocasiões de prazer. Deixa que o desejo se torne o arbítrio para decidir, vez por vez, o que achar mais vantajoso. Sua liberdade corre o risco de transformar-se em escravidão do instante.
Infelizmente a ausência de pavores e de sofrimentos não chega por encomenda. O indivíduo não pode dizer a si mesmo “seja livre de pavores e de sofrimentos!”, como não também dizer “seja espontâneo!”. Além disso, quando é que as contínuas satisfações dos desejos, numa espécie de corrida frenética contra o tempo, trazem a ausência de pavores e de sofrimentos?
As duas referidas estratégias contêm a tentação de uma fuga da política, isto é, de uma busca individual da ausência de pavores e de sofrimentos, devido ao descrédito da dimensão pública. A política se apresenta, atualmente, mais como promessa de ausência de pavores e de sofrimentos privada do que coletiva. As duas referidas estratégias têm um elemento em comum: a tentação de fugir tanto da política e da história, como também do projeto em comum, a favor, por um lado, de uma salvação da alma individual ou, por outro lado, de uma busca desenfreada e privada de prazeres. De qualquer modo, a ausência de pavores e de sofrimentos é considerada um bem à guisa de refúgio a que somente o indivíduo possa aceder, em áreas oportunamente protegidas.
É preciso sair de si próprios, descobrir de novo o enorme espaço positivo da sociabilidade e de uma política que não se identifica com as tagarelices televisivas ou com a inevitável visão limitada da própria política. Na verdade não é possível viver feliz em um leprosário: uma felicidade pessoal não arejada e oxigenada pela esfera pública acaba tendo cheiro de mofo ou declarando a própria natureza de recuo e de derrota.
Com o afastamento das perspectivas de salvação mediante a política, o ser humano está procurando outros caminhos, estabelecendo ou restabelecendo diversas estratégias. Duas delas são as mais difusas e significativas.
A primeira é aquela de buscar, de novo e intensamente, a ausência de pavores e de sofrimentos em um outro mundo, no céu, sentindo, porém que é ao mesmo tempo cidadão e estrangeiro nesta terra, na qual deve eventualmente tomar conta, mas considerá-la apenas como uma etapa provisória da caminhada rumo à ausência plena de pavores e de sofrimentos.
Diminui o “sentido histórico” e aumenta a necessidade do “absoluto”. Conseqüência da perda da crença que o curso da história se orienta espontaneamente para o melhor. No passado, a primazia do sentido da história durou enquanto foi garantida pela confiança numa reserva áurea de “progresso” que se acumulou no decurso dos séculos.
Todavia, é paradoxal, ao menos na aparência, o facto que hoje vem perdendo credibilidade a idéia de uma conspiração dos eventos rumando para um fim comum. Isto estaria acontecendo justamente no momento em que o mercado mundial e o sistema das comunicações põem em contato rápida e facilmente todos os povos da terra, no momento em que a rede de interdependências globais se torna cada vez mais densa.
Pela primeira vez o ser humano está virtualmente em condição de captar a história contemporânea como um todo. Mesmo assim ele é obrigado a registrar uma espécie de “estrabismo perceptivo”, considerando que, por um lado, assiste o avanço da “globalização” e, por outro lado, o fechamento das “culturas” em si próprias e à sua vontade de evitar a homologação planetária.
Hoje, pode-se afirmar que a queda do sentido histórico depende do facto que se perdeu de vista qualquer processo unitário da história sob a orientação de um protagonista bem identificado. Desapareceram os critérios de seleção implícitos nos modelos que interpretavam o processo histórico como processo unitário guiado por “macro-sujeitos”.
A ausência de pavores e de sofrimentos é procurada na vontade renascida de resguardar-se da tirania do curso do mundo, no desejo por vezes de ignorar os contextos mais amplos em que se vive. Tal projeto, porém, resulta inviável, além de inútil. Jamais conseguiremos tornar-nos independentes do envolvimento com os eventos “externos”.
Por isso, as técnicas de isolamento que visam desvincular-nos totalmente dos condicionamentos históricos são tão funestas quanto aquelas que procuram mergulhar o ser humano nos eventos a ponto de levá-lo a perder a autonomia individual.
A segunda estratégia, ao contrário, consiste em mergulhar profundamente nas satisfações e nos prazeres da vida presente. Percebendo a vida como contingente e fugidia (onde tudo se acaba) o ser humano faz tudo para se saciar aproveitando todas as ocasiões de prazer. Deixa que o desejo se torne o arbítrio para decidir, vez por vez, o que achar mais vantajoso. Sua liberdade corre o risco de transformar-se em escravidão do instante.
Infelizmente a ausência de pavores e de sofrimentos não chega por encomenda. O indivíduo não pode dizer a si mesmo “seja livre de pavores e de sofrimentos!”, como não também dizer “seja espontâneo!”. Além disso, quando é que as contínuas satisfações dos desejos, numa espécie de corrida frenética contra o tempo, trazem a ausência de pavores e de sofrimentos?
As duas referidas estratégias contêm a tentação de uma fuga da política, isto é, de uma busca individual da ausência de pavores e de sofrimentos, devido ao descrédito da dimensão pública. A política se apresenta, atualmente, mais como promessa de ausência de pavores e de sofrimentos privada do que coletiva. As duas referidas estratégias têm um elemento em comum: a tentação de fugir tanto da política e da história, como também do projeto em comum, a favor, por um lado, de uma salvação da alma individual ou, por outro lado, de uma busca desenfreada e privada de prazeres. De qualquer modo, a ausência de pavores e de sofrimentos é considerada um bem à guisa de refúgio a que somente o indivíduo possa aceder, em áreas oportunamente protegidas.
É preciso sair de si próprios, descobrir de novo o enorme espaço positivo da sociabilidade e de uma política que não se identifica com as tagarelices televisivas ou com a inevitável visão limitada da própria política. Na verdade não é possível viver feliz em um leprosário: uma felicidade pessoal não arejada e oxigenada pela esfera pública acaba tendo cheiro de mofo ou declarando a própria natureza de recuo e de derrota.
HISTÓRIA ANTIGA ORIENTAL - A ARTE EGÍPCIA NA ANTIGUIDADE
A Arte no Egito
A principal civilização da Antiguidade Oriental foi sem dúvida a que se desenvolveu no Egito. Era uma civilização já bastante complexa em sua organização social e riquíssima em suas realizações culturais. Além disso, produziram uma escrita bem estruturada, graças à qual temos um conhecimento bastante completo de sua cultura.
Mas a religião é talvez o aspecto mais significativo da cultura egípcia. Tudo no Egito era orientado por ela: o mundo poderia ser destruído não fossem as preces e os ritos religiosos, a felicidade nessa vida e a sobrevivência depois da morte eram asseguradas pelas práticas rituais, e até mesmo 'o ritmo das enchentes, a fertilidade do solo e a própria disposição racional dos canais de irrigação dependiam diretamente da ação divina do faraó.
A arte egípcia refere-se à arte desenvolvida e aplicada pela civilização do antigo Egito localizada no vale do rio Nilo no Norte da África. Esta manifestação artística teve a sua supremacia na região durante um longo período de tempo, estendendo-se aproximadamente pelos últimos 3000 anos antes de Cristo.
Os principais motivos e objetivos desta arte são sobretudo políticos e religiosos. Para compreender a que nível se expressam estes objetivos é necessário ter em conta a figura do soberano absoluto, o faraó. Ele é o representante de Deus na Terra (sendo muitas vezes o próprio Deus – princípio Teocrácico) e é este seu aspecto divino que vai vincar profundamente a manifestação artística.
Embora seja uma arte estilizada é também uma arte de atenção ao pormenor, de detalhe realista, que tenta apresentar o aspecto mais revelador de determinada entidade, embora com restritos ângulos de visão. Para esta representação são só possíveis três pontos de vista pela parte do observador: de frente, de perfil e de cima, e que cunham o estilo de uma forte componente estática, de uma imobilidade solene.
O corpo humano, especialmente o de figuras importantes, é representado utilizando dois pontos de vista simultaneos, os que oferecem maior informação e favorecem a dignidade da personagem: os olhos, ombros e peito representam-se vistos de frente; a cabeça e as pernas representam-se vistos de lado.
Foi uma das principais civilizações da Antigüidade, bastante complexa em sua organização social e riquíssima em suas realizações culturais.
A religião invadiu toda a vida egípcia, interpretando o universo, justificando sua organização social e política, determinando o papel de cada classe social e, conseqüentemente, orientando toda a produção artística desse povo.
Além de crer em deuses que poderiam interferir na história humana, os egípcios acreditavam também numa vida após a morte e achavam que essa vida era mais importante do que a que viviam no presente.
O fundamento ideológico da arte egípcia é a glorificação dos deuses e do rei defunto divinizado, para o qual se erguiam templos funerários e túmulos grandiosos.
Assim, as expressões artísticas são produzidas de acordo com os contextos históricos. Durante a antiguidade a arte é extremamente abrangente e composta pelas riquezas das artes egípcia, grega, romana, paleocristã, bizantina e islâmica. Entretanto, enquanto a arte egípcia é vinculada ao espírito, aos deuses e sua glorificação, a arte grega a liga-se à inteligência.
ARQUITETURA
Características
* solidez e durabilidade;
* sentimento de eternidade; e
* aspecto misterioso e impenetrável.
ESCULTURA
Os escultores egípcios representavam os faraós e os deuses em posição serena, quase sempre de frente, sem demonstrar nenhuma emoção. Pretendiam com isso traduzir, na pedra, uma ilusão de imortalidade.
Características
* ausência de três dimensões;
* ignorância da profundidade;
* colorido a tinta lisa, sem claro-escuro e sem indicação do relevo; e
* Lei da Frontalidade que determinava que o tronco da pessoa fosse representado sempre de frente, enquanto sua cabeça, suas pernas e seus pés eram vistos de perfil.
Hierarquia na pintura
Eram representadas maiores as pessoas com maior importância no reino, ou seja, nesta ordem de grandeza: o rei, a mulher do rei, o sacerdote, os soldados e o povo. As figuras femininas eram pintadas em ocre, enquanto que as masculinas pintadas de vermelho.
A principal civilização da Antiguidade Oriental foi sem dúvida a que se desenvolveu no Egito. Era uma civilização já bastante complexa em sua organização social e riquíssima em suas realizações culturais. Além disso, produziram uma escrita bem estruturada, graças à qual temos um conhecimento bastante completo de sua cultura.
Mas a religião é talvez o aspecto mais significativo da cultura egípcia. Tudo no Egito era orientado por ela: o mundo poderia ser destruído não fossem as preces e os ritos religiosos, a felicidade nessa vida e a sobrevivência depois da morte eram asseguradas pelas práticas rituais, e até mesmo 'o ritmo das enchentes, a fertilidade do solo e a própria disposição racional dos canais de irrigação dependiam diretamente da ação divina do faraó.
A arte egípcia refere-se à arte desenvolvida e aplicada pela civilização do antigo Egito localizada no vale do rio Nilo no Norte da África. Esta manifestação artística teve a sua supremacia na região durante um longo período de tempo, estendendo-se aproximadamente pelos últimos 3000 anos antes de Cristo.
Os principais motivos e objetivos desta arte são sobretudo políticos e religiosos. Para compreender a que nível se expressam estes objetivos é necessário ter em conta a figura do soberano absoluto, o faraó. Ele é o representante de Deus na Terra (sendo muitas vezes o próprio Deus – princípio Teocrácico) e é este seu aspecto divino que vai vincar profundamente a manifestação artística.
Embora seja uma arte estilizada é também uma arte de atenção ao pormenor, de detalhe realista, que tenta apresentar o aspecto mais revelador de determinada entidade, embora com restritos ângulos de visão. Para esta representação são só possíveis três pontos de vista pela parte do observador: de frente, de perfil e de cima, e que cunham o estilo de uma forte componente estática, de uma imobilidade solene.
O corpo humano, especialmente o de figuras importantes, é representado utilizando dois pontos de vista simultaneos, os que oferecem maior informação e favorecem a dignidade da personagem: os olhos, ombros e peito representam-se vistos de frente; a cabeça e as pernas representam-se vistos de lado.
Foi uma das principais civilizações da Antigüidade, bastante complexa em sua organização social e riquíssima em suas realizações culturais.
A religião invadiu toda a vida egípcia, interpretando o universo, justificando sua organização social e política, determinando o papel de cada classe social e, conseqüentemente, orientando toda a produção artística desse povo.
Além de crer em deuses que poderiam interferir na história humana, os egípcios acreditavam também numa vida após a morte e achavam que essa vida era mais importante do que a que viviam no presente.
O fundamento ideológico da arte egípcia é a glorificação dos deuses e do rei defunto divinizado, para o qual se erguiam templos funerários e túmulos grandiosos.
Assim, as expressões artísticas são produzidas de acordo com os contextos históricos. Durante a antiguidade a arte é extremamente abrangente e composta pelas riquezas das artes egípcia, grega, romana, paleocristã, bizantina e islâmica. Entretanto, enquanto a arte egípcia é vinculada ao espírito, aos deuses e sua glorificação, a arte grega a liga-se à inteligência.
ARQUITETURA
Características
* solidez e durabilidade;
* sentimento de eternidade; e
* aspecto misterioso e impenetrável.
ESCULTURA
Os escultores egípcios representavam os faraós e os deuses em posição serena, quase sempre de frente, sem demonstrar nenhuma emoção. Pretendiam com isso traduzir, na pedra, uma ilusão de imortalidade.
Características
* ausência de três dimensões;
* ignorância da profundidade;
* colorido a tinta lisa, sem claro-escuro e sem indicação do relevo; e
* Lei da Frontalidade que determinava que o tronco da pessoa fosse representado sempre de frente, enquanto sua cabeça, suas pernas e seus pés eram vistos de perfil.
Hierarquia na pintura
Eram representadas maiores as pessoas com maior importância no reino, ou seja, nesta ordem de grandeza: o rei, a mulher do rei, o sacerdote, os soldados e o povo. As figuras femininas eram pintadas em ocre, enquanto que as masculinas pintadas de vermelho.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
RESUMO: AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES - JAIME PINSKY
O Historiador Jaime Pinsky em seu livro, “As primeiras civilizações”, desenvolve as suas análises de desenvolvimento do homem pré-histórico para o homem atualmente conhecido como civilizado, se baseando de forma análoga ao atual comportamento humano. Segundo o autor a concepção de evolução do que hoje chamamos de homo sapiens é atribuída aos materiais que o mesmo desenvolve na sua cadeia evolutiva ao longo da história, para que com esses instrumentos se tenha análise completa do cotidiano na época datada. A estrutura social também é investigada, na divisão de tarefas do trabalho de subsistência da época assim como suas atribuições para cada sexo. A hierarquização da estrutura político-social é outra análise feita pelo autor ao longo do seu livro.
As descobertas de fósseis não seguem a ordem de um roteiro preestabelecido, nem a vontade dos pesquisadores, para tal os arqueólogos necessitam se localizar em regiões de proximidades com outros recém achados arqueológicos. Nesta concepção o autor revela a dificuldade de se manter uma linha cronológica coerente das descobertas, pois a cada instante pode está se descobrindo novos artefatos que venham a invalidar aquele que foi catalogado como anterior aos demais em outro momento.
Demonstra, o historiador, uma grande preocupação com relação à como as lacunas da história muitas vezes são preenchidas de forma arbitrária por cientistas a partir de especulações muitas vezes infundadas ou pouco prováveis, conseqüências que surgem devido à implantação da idéia de que a ciência pode responder a todas as questões, concepção no século XIX. Por isso muitas vezes pode haver distorções de teorias supostas anteriormente a partir de uma interpretação errônea. Como exemplo, o livro traz as contradições feitas ao redor da “seleção natural” proposta por Darwin.
Outra preocupação do historiador, Pinsky, é a de não impor aos ancestrais, a pessoas que viveram em época muito distinta da atual realidade, valores, padrões de comportamento e vontades que são do recente conceito de civilização. O que o autor quer deixar de forma clara é que deve se analisar o homem evoluído do homem estereotipado como primata, o meio em que cada um convive e as dificuldades que cada um enfrenta. Ao notar o exemplo de instrumentos rudimentares e as altas tecnologias que o ser humano dispõe hoje, assim como a expansão geográfica do homem, conclui-se que foi necessário a atitude de aventurar-se e ousar para dar certo nível no processo de evolução da humanidade.
A idéia de “seres primatas” corresponde a uma organização social incipiente, um sistema de crenças baseado em superstições infantis, e uma arte ingênua, o tempo todo tomado pela preocupação angustiante da sobrevivência. A partir de este parecer o livro nos encaminha ao questionamento sobre a inquietude humana e seus conceitos de valores. É notável que o homem vá à busca cada vez mais da riqueza técnica e do progresso material, afinal o que o homem busca na verdade com todo este avanço, é nesse ponto que o autor se baseia na construção da obra.
O homem na sua estrutura social e em seu mecanismo de sobrevivência divide as tarefas de seu cotidiano “primata” entre os sexos, onde a mulher fica responsável pela coleta (cereais e ervas que mais tarde se desenvolve para a atividade agrícola), e o homem pela caça. Tal divisão de deveres deixa até hoje como relata o autor, qual seria o grau de importância que supostamente o homem tem perante a mulher, ao responder esta questão, ele revela que esta suposição é meramente estabelecida pelo poder físico do homem que vem a ser maior do que o da mulher e do fator mítico da hegemonia masculina.
A revolução agrícola proporcionou a locomoção dos homens na época, para que assim eles pudessem aumentar a sua área de cultivo e saciar todo o ciclo de subsistência do seu grupo, nas suas diversas subdivisões de trabalho. Com o advento da agricultura, os grupos podiam ser maiores desde que dentro de limites estabelecidos pela fertilidade do solo, quantidade de terra disponível e estrutura organizacional da tribo. Este processo intenso de subdivisões e deslocamentos provocou uma onda de difusão da agricultura e a atividade pastoril, buscando o estoque dos mantimentos para a manutenção alimentícia da população.
A passagem da atividade coletora para a agrícola deu-se de uma maneira brusca ou através de magia, é uma forma errada de se pensar sobre esse assunto, segundo o autor. Esta transformação ocorreu através de um longo processo que incluiu cuidadosa percepção dos fenômenos naturais, elaboração de teoria causa/efeito e doses de acidentalidade, como explica Jaime Pinsky. Ao desenrolar deste processo, a economia simples de produção de alimentos provocou grande transformação nos grupos primitivos, possibilitando as primeiras estocagens.
Na criação das cidades, o homem se torna realmente sedentário. Surge ai então a hierarquização da sociedade, formando a chamada pirâmide social, onde se estabelece um poder político. Para defesa de seus argumentos o autor utiliza as implicações da formação das cidades no cotidiano da época, que de maneira muito interessante reflete até hoje na realidade do século XXI:
“Uma civilização, via de regra, implica uma organização política formal com regras estabelecidas para governantes e governados (mesmo que autoritários e injustos); implica projetos amplos que demandem trabalho conjunto e administração centralizada (como canais de irrigação, grandes templos, pirâmides , portos, etc.); implica a incorporação das crenças por uma religião vinculada ao poder central, direta ou indiretamente (os sacerdotes egípcios, o templo de Jerusalém, etc.); implica uma produção artística que tenha sobrevivido ao tempo e ainda nos encante (o passado não existe em si, senão pelo fato de nós o reconstruirmos); implica a criação ou incorporação de um sistema de escrita (os incas não preenchem esse quesito, e nem por isso deixam de ser civilizados); implica finalmente, mas não por último a criação das cidades.”
Observando este trecho supracitado, pode se concluir que a formação de uma estrutura de ordem civil não depende somente das edificações de uma cidade, mas também é formada por uma conjectura política, religiosa e lingüística.
Jaime Pinsky dirige o seu livro nos últimos capítulos para as especificidades das mais famosas civilizações antigas, Mesopotâmia, os Egípcios e os Hebreus. Ao descrever a Mesopotâmia o historiador, fala sobre o poder da religião sobre esta civilização, e como tal religiosidade, na configuração do sacerdote, mantém o controle de sua população, por base do confisco de objetos e animais além de forçar seus submissos a trabalhos não remunerados.
Não é de se acreditar que quando posto um rei nesta civilização, ele tenha rompido com a religião. Pelo contrário ele passa a atuar junto com ela. Viabiliza dinheiro para construir ou decorar templos, fornece matéria-prima e às vezes até mão-de-obra. Em troca, busca a legitimação de seu poder que surgido dos homens vai se tornando divino, fórmula que mais a frente se tornaria um “clichê” político de quaisquer líderes de estado.
Para o avanço da escrita e da documentação de importantes assuntos, foi necessária na época a criação de uma linguagem baseada na simbologia. As atribuições de uma nova linguagem não deteriam somente a escrita e sim a um sistema de medidas para facilitar as leituras de dimensões e volumes. O cuneiforme mesopotâmico: originalmente pictográficos, o cuneiformes evoluíram para ideogramas e eventualmente, para escrita silábica.
A criação de códigos onde se pregava a jurisprudência, como o código de Hamurábi, revela segundo o autor, o início de uma formação jurídica no estado. Mas tais leis como a citada por Hamurábi, pregavam a punição criminal, assim como se evidenciava o conceito de propriedade privada e pública, e também na área da família, onde demonstra o direito e dever do homem e da mulher.
Ao descrever os egípcios o autor relata que esta civilização começou a ser montada com trabalho organizado a partir de condições geográficas favoráveis. A comunidade de camponeses (felás) era submissa aos mandos e desmandos dos sacerdotes que representavam as palavras do faraó. Os felás eram responsáveis pela produção agrícola, pela mão-de-obra nas construções, o mecanismo utilizado para sua submissão ao faraó era a visão divina que se tinha desse chefe de estado, que não só representava o Egito na política, mas também como na força militar e na religiosidade (sendo igualado a um verdadeiro Deus).
Uma das principais características da civilização do Nilo eram as suas edificações, muitas até hoje levantam questionamentos sobre o seu processo de construção, devido a falta de tecnologia necessária para tais obras. Estes monumentos da antiguidade eram erguidos muitas vezes para servir de tumba para os faraós no momento de seu falecimento, idealizava-se também que tais construções ostentariam o império egípcio, expulsando de certa forma os seus inimigos. Tal grandiosidade nas edificações desafiava desde aquela época as forças da natureza, a exemplo da construção de barragens, que até hoje é utilizada na construção civil.
A cultura hebraica se desenvolveu no primeiro milênio a.C., localizava-se na mesopotâmia. Pinsky ao longo do capitulo tenta deixar claro que mesmo com muitas passagens bíblicas que narram a vida da sociedade hebraica não existem evidências que os acontecimentos tenham a veracidade.
Acredita-se que o povo hebreu inicia-se a partir do momento em que se instalam na região de Jericó. Com o tempo acontece a transição da sociedade sem poder central para uma monarquia centralizada.
Davi, rei muito conhecido pelo seu carisma e por ser um ótimo combatente, assumiu o trono, mandou construir um palácio, mas, percebeu que faltava o prestigio religioso, logo viu chance de se apoiar em Iavé, o deus dos hebreus. Depois seu filho Salomão, assumiu seu trono e conquistou muitas terras a partir de casamentos onde os dotes eram territórios, porém, perdeu prestígio de seus súditos quando se viu obrigado a cobrar impostos, coube a ele construir o templo de Jerusalém, para tentar unificar o povo hebreu.
Apesar dos esforços de Salomão para manter a unificação do povo hebreu, Israel é destruída e assim as tribos hebraicas passaram a aderir a outras culturas e Iavé perdeu o prestígio, meio século depois o reino de Javé e reconstruído e o templo de Jerusalém reerguido e povo hebraico pode enfim ter sua identidade cultural restabelecida.
CONCLUSÃO
A todo momento na descrição dos seus capítulos Jaime Pinsky , tenta retratar com definições muito claras a ordem dos acontecimentos. O que quase todo historiador tenta fazer é a recomposição dos fatos para que haja uma coerência, pois se estamos aqui de modo tão evoluído é porque alguém antes deste atual conceito de civilização se viu obrigado a mudar as estratégias para que pudesse sobreviver.
Ao fazer a leitura deste livro pode-se executar um olhar crítico para a evolução da humanidade, e entender que não passamos por uma seleção natural, mas sim por uma adequação à natureza, aprendendo a dominá-la e desenvolvendo habilidades a partir da observação. Uma ilustração para isso foi a necessidade de dominar o fogo para inibir seus predadores e cozinhar seus alimentos, outro exemplo seria a agricultura que substituiu o ato da coleta, e a criação que substitui a caça, e essas sim fizeram com que a partir daí o homem tenha se sedentarizado. O homem ligado a terra pode dividir tarefas, criar o ato do trabalho coletivo e mais tarde organizar-se em uma sociedade urbana com classes sociais e deuses que em muitos lugares explicavam o poder que muitos monarcas detêm.
Desta forma a sociedade que vivemos hoje de forma tão hierarquizadas, mestiça e desigual, mas também com traços políticos desenvolvidos, e economia com grande amplitude, surgiu através da necessidade que o homem possui de organização. Afinal as invenções nascem conforme sua precisão
As descobertas de fósseis não seguem a ordem de um roteiro preestabelecido, nem a vontade dos pesquisadores, para tal os arqueólogos necessitam se localizar em regiões de proximidades com outros recém achados arqueológicos. Nesta concepção o autor revela a dificuldade de se manter uma linha cronológica coerente das descobertas, pois a cada instante pode está se descobrindo novos artefatos que venham a invalidar aquele que foi catalogado como anterior aos demais em outro momento.
Demonstra, o historiador, uma grande preocupação com relação à como as lacunas da história muitas vezes são preenchidas de forma arbitrária por cientistas a partir de especulações muitas vezes infundadas ou pouco prováveis, conseqüências que surgem devido à implantação da idéia de que a ciência pode responder a todas as questões, concepção no século XIX. Por isso muitas vezes pode haver distorções de teorias supostas anteriormente a partir de uma interpretação errônea. Como exemplo, o livro traz as contradições feitas ao redor da “seleção natural” proposta por Darwin.
Outra preocupação do historiador, Pinsky, é a de não impor aos ancestrais, a pessoas que viveram em época muito distinta da atual realidade, valores, padrões de comportamento e vontades que são do recente conceito de civilização. O que o autor quer deixar de forma clara é que deve se analisar o homem evoluído do homem estereotipado como primata, o meio em que cada um convive e as dificuldades que cada um enfrenta. Ao notar o exemplo de instrumentos rudimentares e as altas tecnologias que o ser humano dispõe hoje, assim como a expansão geográfica do homem, conclui-se que foi necessário a atitude de aventurar-se e ousar para dar certo nível no processo de evolução da humanidade.
A idéia de “seres primatas” corresponde a uma organização social incipiente, um sistema de crenças baseado em superstições infantis, e uma arte ingênua, o tempo todo tomado pela preocupação angustiante da sobrevivência. A partir de este parecer o livro nos encaminha ao questionamento sobre a inquietude humana e seus conceitos de valores. É notável que o homem vá à busca cada vez mais da riqueza técnica e do progresso material, afinal o que o homem busca na verdade com todo este avanço, é nesse ponto que o autor se baseia na construção da obra.
O homem na sua estrutura social e em seu mecanismo de sobrevivência divide as tarefas de seu cotidiano “primata” entre os sexos, onde a mulher fica responsável pela coleta (cereais e ervas que mais tarde se desenvolve para a atividade agrícola), e o homem pela caça. Tal divisão de deveres deixa até hoje como relata o autor, qual seria o grau de importância que supostamente o homem tem perante a mulher, ao responder esta questão, ele revela que esta suposição é meramente estabelecida pelo poder físico do homem que vem a ser maior do que o da mulher e do fator mítico da hegemonia masculina.
A revolução agrícola proporcionou a locomoção dos homens na época, para que assim eles pudessem aumentar a sua área de cultivo e saciar todo o ciclo de subsistência do seu grupo, nas suas diversas subdivisões de trabalho. Com o advento da agricultura, os grupos podiam ser maiores desde que dentro de limites estabelecidos pela fertilidade do solo, quantidade de terra disponível e estrutura organizacional da tribo. Este processo intenso de subdivisões e deslocamentos provocou uma onda de difusão da agricultura e a atividade pastoril, buscando o estoque dos mantimentos para a manutenção alimentícia da população.
A passagem da atividade coletora para a agrícola deu-se de uma maneira brusca ou através de magia, é uma forma errada de se pensar sobre esse assunto, segundo o autor. Esta transformação ocorreu através de um longo processo que incluiu cuidadosa percepção dos fenômenos naturais, elaboração de teoria causa/efeito e doses de acidentalidade, como explica Jaime Pinsky. Ao desenrolar deste processo, a economia simples de produção de alimentos provocou grande transformação nos grupos primitivos, possibilitando as primeiras estocagens.
Na criação das cidades, o homem se torna realmente sedentário. Surge ai então a hierarquização da sociedade, formando a chamada pirâmide social, onde se estabelece um poder político. Para defesa de seus argumentos o autor utiliza as implicações da formação das cidades no cotidiano da época, que de maneira muito interessante reflete até hoje na realidade do século XXI:
“Uma civilização, via de regra, implica uma organização política formal com regras estabelecidas para governantes e governados (mesmo que autoritários e injustos); implica projetos amplos que demandem trabalho conjunto e administração centralizada (como canais de irrigação, grandes templos, pirâmides , portos, etc.); implica a incorporação das crenças por uma religião vinculada ao poder central, direta ou indiretamente (os sacerdotes egípcios, o templo de Jerusalém, etc.); implica uma produção artística que tenha sobrevivido ao tempo e ainda nos encante (o passado não existe em si, senão pelo fato de nós o reconstruirmos); implica a criação ou incorporação de um sistema de escrita (os incas não preenchem esse quesito, e nem por isso deixam de ser civilizados); implica finalmente, mas não por último a criação das cidades.”
Observando este trecho supracitado, pode se concluir que a formação de uma estrutura de ordem civil não depende somente das edificações de uma cidade, mas também é formada por uma conjectura política, religiosa e lingüística.
Jaime Pinsky dirige o seu livro nos últimos capítulos para as especificidades das mais famosas civilizações antigas, Mesopotâmia, os Egípcios e os Hebreus. Ao descrever a Mesopotâmia o historiador, fala sobre o poder da religião sobre esta civilização, e como tal religiosidade, na configuração do sacerdote, mantém o controle de sua população, por base do confisco de objetos e animais além de forçar seus submissos a trabalhos não remunerados.
Não é de se acreditar que quando posto um rei nesta civilização, ele tenha rompido com a religião. Pelo contrário ele passa a atuar junto com ela. Viabiliza dinheiro para construir ou decorar templos, fornece matéria-prima e às vezes até mão-de-obra. Em troca, busca a legitimação de seu poder que surgido dos homens vai se tornando divino, fórmula que mais a frente se tornaria um “clichê” político de quaisquer líderes de estado.
Para o avanço da escrita e da documentação de importantes assuntos, foi necessária na época a criação de uma linguagem baseada na simbologia. As atribuições de uma nova linguagem não deteriam somente a escrita e sim a um sistema de medidas para facilitar as leituras de dimensões e volumes. O cuneiforme mesopotâmico: originalmente pictográficos, o cuneiformes evoluíram para ideogramas e eventualmente, para escrita silábica.
A criação de códigos onde se pregava a jurisprudência, como o código de Hamurábi, revela segundo o autor, o início de uma formação jurídica no estado. Mas tais leis como a citada por Hamurábi, pregavam a punição criminal, assim como se evidenciava o conceito de propriedade privada e pública, e também na área da família, onde demonstra o direito e dever do homem e da mulher.
Ao descrever os egípcios o autor relata que esta civilização começou a ser montada com trabalho organizado a partir de condições geográficas favoráveis. A comunidade de camponeses (felás) era submissa aos mandos e desmandos dos sacerdotes que representavam as palavras do faraó. Os felás eram responsáveis pela produção agrícola, pela mão-de-obra nas construções, o mecanismo utilizado para sua submissão ao faraó era a visão divina que se tinha desse chefe de estado, que não só representava o Egito na política, mas também como na força militar e na religiosidade (sendo igualado a um verdadeiro Deus).
Uma das principais características da civilização do Nilo eram as suas edificações, muitas até hoje levantam questionamentos sobre o seu processo de construção, devido a falta de tecnologia necessária para tais obras. Estes monumentos da antiguidade eram erguidos muitas vezes para servir de tumba para os faraós no momento de seu falecimento, idealizava-se também que tais construções ostentariam o império egípcio, expulsando de certa forma os seus inimigos. Tal grandiosidade nas edificações desafiava desde aquela época as forças da natureza, a exemplo da construção de barragens, que até hoje é utilizada na construção civil.
A cultura hebraica se desenvolveu no primeiro milênio a.C., localizava-se na mesopotâmia. Pinsky ao longo do capitulo tenta deixar claro que mesmo com muitas passagens bíblicas que narram a vida da sociedade hebraica não existem evidências que os acontecimentos tenham a veracidade.
Acredita-se que o povo hebreu inicia-se a partir do momento em que se instalam na região de Jericó. Com o tempo acontece a transição da sociedade sem poder central para uma monarquia centralizada.
Davi, rei muito conhecido pelo seu carisma e por ser um ótimo combatente, assumiu o trono, mandou construir um palácio, mas, percebeu que faltava o prestigio religioso, logo viu chance de se apoiar em Iavé, o deus dos hebreus. Depois seu filho Salomão, assumiu seu trono e conquistou muitas terras a partir de casamentos onde os dotes eram territórios, porém, perdeu prestígio de seus súditos quando se viu obrigado a cobrar impostos, coube a ele construir o templo de Jerusalém, para tentar unificar o povo hebreu.
Apesar dos esforços de Salomão para manter a unificação do povo hebreu, Israel é destruída e assim as tribos hebraicas passaram a aderir a outras culturas e Iavé perdeu o prestígio, meio século depois o reino de Javé e reconstruído e o templo de Jerusalém reerguido e povo hebraico pode enfim ter sua identidade cultural restabelecida.
CONCLUSÃO
A todo momento na descrição dos seus capítulos Jaime Pinsky , tenta retratar com definições muito claras a ordem dos acontecimentos. O que quase todo historiador tenta fazer é a recomposição dos fatos para que haja uma coerência, pois se estamos aqui de modo tão evoluído é porque alguém antes deste atual conceito de civilização se viu obrigado a mudar as estratégias para que pudesse sobreviver.
Ao fazer a leitura deste livro pode-se executar um olhar crítico para a evolução da humanidade, e entender que não passamos por uma seleção natural, mas sim por uma adequação à natureza, aprendendo a dominá-la e desenvolvendo habilidades a partir da observação. Uma ilustração para isso foi a necessidade de dominar o fogo para inibir seus predadores e cozinhar seus alimentos, outro exemplo seria a agricultura que substituiu o ato da coleta, e a criação que substitui a caça, e essas sim fizeram com que a partir daí o homem tenha se sedentarizado. O homem ligado a terra pode dividir tarefas, criar o ato do trabalho coletivo e mais tarde organizar-se em uma sociedade urbana com classes sociais e deuses que em muitos lugares explicavam o poder que muitos monarcas detêm.
Desta forma a sociedade que vivemos hoje de forma tão hierarquizadas, mestiça e desigual, mas também com traços políticos desenvolvidos, e economia com grande amplitude, surgiu através da necessidade que o homem possui de organização. Afinal as invenções nascem conforme sua precisão
domingo, 1 de maio de 2011
HISTÓRIA ANTIGA ORIENTAL RESUMO EXCETO EGÍPCIOS
MESOPOTÂMIA
A estreita faixa de terra localizada entre os rios Tigre e Eufrates foi chamada pelos Gregos, na Antiguidade, de Mesopotâmia, isto é, "terra entre os rios".
Entre os povos temos: Sumérios, os Babilônios, os Hititas, os Assírrios e os Caldeus.
A sociedade mesopotâmica era dividida em estamentos. Definição: eram camadas sociais, nas quais a posição social dos individuos dependia do nascimento. Os sacerdotes, os aristocratas, os militares e os comerciantes formavam os estamentos da minoria. A maioria da população era formada pelos artesãos, camponeses e escravos.
Na Mesopotâmia havia um entrelaçamento entre politica e religião. Os reis exerciam as funções de sumo sacerdote, supremo juiz e comandante militar.
Economia
A Agricultura era base da Economia. A economia da Baixa Mesopotâmia, em meados do terceiro milênio a.C., baseava-se na agricultura de irrigação. Cultivavam trigo, cevada, linho, gergelim (sésamo, de onde extraiam o azeite para alimentação e iluminação), árvores frutíferas, raízes e legumes.
A Criação de Animais. A criação de carneiros, burros, bois, gansos e patos era bastante desenvolvida;
Comércio
Os comerciantes eram funcionários a serviço dos templos e do palácio. Apesar disso, podiam fazer negócios por conta própria. A situação geográfica e a pobreza de matérias primas favoreceram os empreendimentos mercantis. As caravanas de mercadores iam vender seus produtos e buscar o marfim da Índia, a madeira do Líbano, o cobre de Chipre e o estanho de Cáucaso. Exportavam tecidos de linho, lã e tapetes, além de pedras preciosas e perfumes.
Sociedade
Administradas por uma corporação de sacerdotes, as terras, que teoricamente eram dos deuses, eram entregues aos camponeses. Cada família recebia um lote de terra e devia entregar ao templo uma parte da colheita como pagamento pelo uso útil da terra. Já as propriedades particulares eram cultivadas por assalariados ou arrendatários.
Religião
Os deuses, extremamente numerosos, eram representados à imagem e semelhança dos seres humanos. O sol, a lua, os rios, outros elementos da natureza e entidades sobrenaturais, também eram cultuados. Embora cada cidade possuísse seu próprio deus, havia entre os sumérios algumas divindades aceitas por todos. Na Mesopotâmia, os deuses representavam o bem e o mal, tanto que adotavam castigos contra quem não cumpria com as obrigações.
Cultura
A música na Mesopotâmia, principalmente entre os babilônicos, estava ligada à religião. Quando reunidos, cantavam hinos em louvor dos deuses, com acompanhamento de música. Esses hinos começavam muitas vezes, pelas expressões: " Glória, louvor tal deus; quero cantar os louvores de tal deus", seguindo a enumeração de suas qualidades, de socorro que dele pode esperar o fiel.
A dança, que é o gesto, o ato reforçado, se apóia em magia sobre leis da semelhança. Ela é mímica, aplica-se a todas as coisas:- há danças para fazer chover, para guerra, de caça, de amor etc.
Danças rituais têm sido representadas em monumentos da Ásia Ocidental, Suméria. Em Thecheme-Ali, perto de Teerã; em Tepe-Sialk, perto de Kashan; em Tepe-Mussian, região de Susa, cacos arcaicos reproduzem filas de mulheres nuas, dando-se as mãos, cabelos ao vento, executando uma dança. Em cilindros-sinetes vêem-se danças no curso dos festins sagrados (tumbas reais de Ur).
Contribuição - Foi de grande importância a herança que os sumérios e os babilônios deixaram aos povos futuros. Entre outras contribuições, podemos apontar:
A organização social e política das cidades-estados.
Criação de um código de direitos e deveres. (HAMURABI, MAIS À FRENTE)
Produção organizada de alimentos: já naquela época, empregavam o arado e máquinas de irrigação, por exemplo.
Construção de belos templos e imponentes palácios.
Os FENÍCIOS inventaram a escrita, que permitiu fixar o saber da época. (MAIS À FRENTE)
Invenção da roda e dos carros puxados por cavalos. (SUMÉRIOS)
Criação da astronomia (estudos dos astros).
Astrologia, ou seja, o estudo dos astros e suas influências sobre o destino das pessoas.
Os povos antigos da Mesopotâmia não acreditavam na imortalidade da alma, tinham uma religião pessimista e levavam a vida sem se preocupar com a morte ou com a vida além-túmulo. Procuravam se proteger contra as forças do mal usando amuletos e fazendo toda sorte de magia.
Uma das divindades mais cultuadas era deusa Ishtar, que é a personificação representativa do planeta Vênus, o mais próximo da Terra em relação à Marte. Era a deusa do amor e da guerra.
SUMÉRIOS
A mais completa fonte de informações à respeito da nossa origem, se encontra entre os achados arqueológicos da civilização suméria. Os sumérios foram os co-fundadores da primeira grande civilização da Mesopotâmia, como era chamada à região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates, que nascem nas montanhas da Turquia e desembocam no Golfo Pérsico. Onde atualmente está situado o Iraque. Sua organização social foi literalmente responsável pelo mundo como conhecemos hoje. Elementos que influenciaram na formação das sociedades greco-romanas, que por sua vez influenciaram todo o mundo ocidental e estão fortemente presentes até os dias de hoje.
Os sumérios fundaram as primeiras cidades, dentre elas: Ur, Uruk, Nippur, Eridu, Lagash e Kish, que eram cidades-Estado, onde tinham autonomia política, logo tinham seu próprio chefe político.
DESTAQUE - PATESI
Cada cidade tinha como figura central um Patesi, que era o chefe da família local e concentrava nele as funções da cidade. O Patesi era uma pessoa mais velha (ancião), escolhida pelos anciãos e por hereditariedade, sendo que, centralizava o poder e privilégios das famílias como chefe militar, político e sacerdote.
Essas características atribuídas aos Patesis vão mudar por volta do ano 2.800 a.C., onde se apresenta a primeira mudança política criando o sistema de dinastia em que o poder fica na família, ou seja, usa-se o critério de hereditariedade
ACÁDIA
Acádia foi uma das mais famosas cidades mesopotâmias, cuja riqueza, esplendor e gloriosos soberanos seriam recordados por milênios. Não dispomos até hoje de registro arqueológico da existência da cidade, nem depósitos de fundações, nem arquivos, nem sepulturas, nenhuma seqüência estratificada de entulho, nenhum remanescente arquitetônico, nada de tijolos com inscrições para identificar o local mesmo assim, a realidade de Acádia como a nova capital de um estado fundado por Sargão nunca esteve em dúvida porque o nome da cidade aparece em documentos escritos a partir da segunda metade do terceiro milênio, provenientes de outros sítios arqueológicos mesopotâmios, além das freqüentes referências a Acádia na literatura cuneiforme, em augúrios e títulos régios. Acádia era conhecida como o centro do mais bem-sucedido império jamais visto, o qual se estendia aos quatro cantos do mundo. Tão prestigioso era o seu nome que os reis babilônios intitularam-se "rei de Acádia" até o advento do período persa.
ASSÍRIA
O povo assírio viveu na antiga Mesopotâmia, região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates. Sua capital, nos anos mais prósperos, foi Nínive, numa região que hoje pertence ao Iraque. O Império assírio abrange o período de 1700 a 610 a.C. , mais de mil anos.
Os assírios eram ferozes guerreiros e usavam sua grande força militar para expandir seu Império. Libertando-se dos sumérios, conquistaram grande parte do seu território, mas logo caíram em poder dos babilônios, um povo que morava ao Sul da Mesopotâmia. Em 1240 a.C, empreenderam a conquista da Babilônia, e a partir daí começaram a alargar as fronteiras do seu Império até atingirem o Egito, no norte da África. O Império Assírio conheceu seu período de maior glória e prosperidade durante o reinado de Assurbanipal (até 630 a.C). Cobravam pesados impostos dos povos vencidos, o que os levava a revoltarem-se continuamente.
Ainda no reinado de Assurbanipal, já os babilônios se libertaram (em 626 a.C.) e capturaram Ninive. Com a morte de Assurbanipal, a decadência do Império Assírio se acentuou, e em 610 a.C. a última de suas cidades caiu em poder dos invasores.
A escrita dos assírios constituía-se de pequenas cunhas feitas com um estilete em tabuletas de argila — é a chamada escrita cuneiforme (que como vimos foi usada por várias outras civilizações até o desenvolvimento da Escrita Fenícia). Descobriram-se milhares de tabule¬tas na biblioteca de Assurbanipal em Ninive, conhecendo-se grande parte da história do Império Assírio a partir de sua leitura.
Os palácios de Nínive são cobertos de es¬culturas em baixo-relevo, representando cenas de batalha e da vida dos assírios. Também por eles sabemos muito da história desse grande Império do passado
destaque
Este povo destacou-se pela organização e desenvolvimento de uma cultura militar. Encaravam a guerra como uma das principais formas de conquistar poder e desenvolver a sociedade. Eram extremamente cruéis com os povos inimigos que conquistavam. Impunham aos vencidos, castigos e crueldades como uma forma de manter respeito e espalhar o medo entre os outros povos. Com estas atitudes, tiveram que enfrentar uma série de revoltas populares nas regiões que conquistavam.
BABILÔNICOS / PRIMEIRO IMPÉRIO
O Império da Babilónia, que teve um papel significativo na história da Mesopotâmia, foi provavelmente fundado em 1950a.C. Por volta de 1900 a.C., um novo processo de invasão territorial dizimou a dominação dos sumérios e acádios na região mesopotâmica. Dessa vez, os amoritas, povo oriundo da região sul do deserto árabe, fundaram uma nova civilização que tinha a Babilônia como sua cidade principal. Somente no século XVIII o rei babilônico Hamurábi conseguiu pacificar a região e instituir o Primeiro Império Babilônico.
Destaque
Além de promover a unificação dos territórios mesopotâmicos, o rei Hamurábi também foi imprescindível na elaboração do mais antigo código de leis escrito do mundo. O chamado Código de Hamurábi era conhecido por seus vários artigos que tratavam de crimes domésticos, comerciais, o direito de herança, falsas acusações e preservação das propriedades
O povo babilônico era muito avançado para a sua época, demonstrando grandes conhecimentos em arquitetura, agricultura, astronomia e direito. Iniciou sua era de império sob o amorita Hamurabi, por volta de 1730 a.C., e manteve-se assim por pouco mais de mil anos. Hamurabi foi o primeiro rei conhecido a codificar leis, utilizando no caso, a escrita cuneiforme, escrevendo suas leis em tábuas de barro cozido, o que preservou muitos destes textos até ao presente. Daí, descobriu-se que a cultura babilônica influenciou em muitos aspectos a cultura moderna, como a divisão do dia em 24 horas, da hora em 60 minutos e daí por diante.
FENÍCIA
Os fenícios eram povos de origem semita. Por volta de 3000 a.C., estabeleceram-se numa estreita faixa de terra com cerca de 35 km de largura, situada entre as montanhas do Líbano e o mar Mediterrâneo. Com 200 km de extensão, corresponde a maior parte do litoral do atual Líbano e uma pequena parte da Síria
Por de habitarem em uma região montanhosa, com poucas terras férteis, os fenícios dedicaram-se à pesca e ao comércio marítimo.
As Cidades Fenícias
Era, um conjunto de Cidades-Estado, independentes entre si. Algumas adotavam a Monarquia Hereditária; outras eram governadas por um Conselho de Anciãos. As cidades fenícias disputavam entre si e com outros povos, o controle das principais rotas do comércio marítimo, duas entretanto se destacavam Siddon e Tiro.
ECONOMIA
A economia dos fenícios desde cedo evoluiu da pesca e da agricultura para uma economia mercantil, pois as escassas terras férteis da Fenícia não permitiam uma produção agrícola capaz de atender às necessidades da população. O comércio marítimo, como já mencionamos, foi sua principal atividade econômica e seu progresso transformou os fenícios nos maiores navegadores da Antigüidade. Suas rotas comerciais marítimas se estenderam por todo o mar mediterrâneo.
Tanto ou mais importante que saber que foram os fenícios a desenvolverem o alfabeto, precisamos entender qual o objetivo disto. O que levou-os a criarem o alfabeto foi justamente a necessidade de controlar e facilitar o comércio. O alfabeto fenício possuía 22 letras, apenas consoantes, e era, portanto, muito mais simples do que a escrita cuneiforme e a hieroglífica. O alfabeto fenício serviu de base para o alfabeto grego. Este deu origem ao alfabeto latino, que, por sua vez, gerou o alfabeto atualmente utilizado no Brasil (vemos ai uma relação estreita entre a cultura fenícia e todas as culturas mundiais – vale lembrar que a escrita é uma importante e poderosa ferramenta de difusão cultural).
BABILÔNIA – SEGUNDO IMPÉRIO
Os caldeus, povos de origem semita, derrotaram os assírios e fizeram da Babilônia novamente a capital da Mesopotâmia.
Assim nasceu o Império Neobabilônico, mais grandioso que o de Hamurábi, e mais de mil anos depois.
Durante o reinado de Nabucodonosor (604 a.C. – 561 a.C.), o Segundo Império Babilônico viveu o seu apogeu.
Foi a época das grandes construções públicas, como os templos para vários deuses, especialmente o de Marduk, as grandes muralhas da cidade e os palácios, a exemplo dos "Jardins Suspensos da Babilônia", considerados pelos gregos como uma das maiores "maravilhas do mundo".
Nabucodonosor também expandiu seu império, dominando boa parte da Fenícia, Síria e Palestina, e escravizando os habitantes do reino de Judá (Esdras, 20-1), que foram transferidos como escravos para a capital ("Cativeiro da Babilônia").
O Segundo Império Babilônico não sobreviveu por muito tempo à morte de Nabucodonosor, sendo conquistado em 539 a.C. pelo rei persa Ciro I.
A partir daí, a Mesopotâmia e seus domínios passaram a pertencer ao Império Persa.
A estreita faixa de terra localizada entre os rios Tigre e Eufrates foi chamada pelos Gregos, na Antiguidade, de Mesopotâmia, isto é, "terra entre os rios".
Entre os povos temos: Sumérios, os Babilônios, os Hititas, os Assírrios e os Caldeus.
A sociedade mesopotâmica era dividida em estamentos. Definição: eram camadas sociais, nas quais a posição social dos individuos dependia do nascimento. Os sacerdotes, os aristocratas, os militares e os comerciantes formavam os estamentos da minoria. A maioria da população era formada pelos artesãos, camponeses e escravos.
Na Mesopotâmia havia um entrelaçamento entre politica e religião. Os reis exerciam as funções de sumo sacerdote, supremo juiz e comandante militar.
Economia
A Agricultura era base da Economia. A economia da Baixa Mesopotâmia, em meados do terceiro milênio a.C., baseava-se na agricultura de irrigação. Cultivavam trigo, cevada, linho, gergelim (sésamo, de onde extraiam o azeite para alimentação e iluminação), árvores frutíferas, raízes e legumes.
A Criação de Animais. A criação de carneiros, burros, bois, gansos e patos era bastante desenvolvida;
Comércio
Os comerciantes eram funcionários a serviço dos templos e do palácio. Apesar disso, podiam fazer negócios por conta própria. A situação geográfica e a pobreza de matérias primas favoreceram os empreendimentos mercantis. As caravanas de mercadores iam vender seus produtos e buscar o marfim da Índia, a madeira do Líbano, o cobre de Chipre e o estanho de Cáucaso. Exportavam tecidos de linho, lã e tapetes, além de pedras preciosas e perfumes.
Sociedade
Administradas por uma corporação de sacerdotes, as terras, que teoricamente eram dos deuses, eram entregues aos camponeses. Cada família recebia um lote de terra e devia entregar ao templo uma parte da colheita como pagamento pelo uso útil da terra. Já as propriedades particulares eram cultivadas por assalariados ou arrendatários.
Religião
Os deuses, extremamente numerosos, eram representados à imagem e semelhança dos seres humanos. O sol, a lua, os rios, outros elementos da natureza e entidades sobrenaturais, também eram cultuados. Embora cada cidade possuísse seu próprio deus, havia entre os sumérios algumas divindades aceitas por todos. Na Mesopotâmia, os deuses representavam o bem e o mal, tanto que adotavam castigos contra quem não cumpria com as obrigações.
Cultura
A música na Mesopotâmia, principalmente entre os babilônicos, estava ligada à religião. Quando reunidos, cantavam hinos em louvor dos deuses, com acompanhamento de música. Esses hinos começavam muitas vezes, pelas expressões: " Glória, louvor tal deus; quero cantar os louvores de tal deus", seguindo a enumeração de suas qualidades, de socorro que dele pode esperar o fiel.
A dança, que é o gesto, o ato reforçado, se apóia em magia sobre leis da semelhança. Ela é mímica, aplica-se a todas as coisas:- há danças para fazer chover, para guerra, de caça, de amor etc.
Danças rituais têm sido representadas em monumentos da Ásia Ocidental, Suméria. Em Thecheme-Ali, perto de Teerã; em Tepe-Sialk, perto de Kashan; em Tepe-Mussian, região de Susa, cacos arcaicos reproduzem filas de mulheres nuas, dando-se as mãos, cabelos ao vento, executando uma dança. Em cilindros-sinetes vêem-se danças no curso dos festins sagrados (tumbas reais de Ur).
Contribuição - Foi de grande importância a herança que os sumérios e os babilônios deixaram aos povos futuros. Entre outras contribuições, podemos apontar:
A organização social e política das cidades-estados.
Criação de um código de direitos e deveres. (HAMURABI, MAIS À FRENTE)
Produção organizada de alimentos: já naquela época, empregavam o arado e máquinas de irrigação, por exemplo.
Construção de belos templos e imponentes palácios.
Os FENÍCIOS inventaram a escrita, que permitiu fixar o saber da época. (MAIS À FRENTE)
Invenção da roda e dos carros puxados por cavalos. (SUMÉRIOS)
Criação da astronomia (estudos dos astros).
Astrologia, ou seja, o estudo dos astros e suas influências sobre o destino das pessoas.
Os povos antigos da Mesopotâmia não acreditavam na imortalidade da alma, tinham uma religião pessimista e levavam a vida sem se preocupar com a morte ou com a vida além-túmulo. Procuravam se proteger contra as forças do mal usando amuletos e fazendo toda sorte de magia.
Uma das divindades mais cultuadas era deusa Ishtar, que é a personificação representativa do planeta Vênus, o mais próximo da Terra em relação à Marte. Era a deusa do amor e da guerra.
SUMÉRIOS
A mais completa fonte de informações à respeito da nossa origem, se encontra entre os achados arqueológicos da civilização suméria. Os sumérios foram os co-fundadores da primeira grande civilização da Mesopotâmia, como era chamada à região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates, que nascem nas montanhas da Turquia e desembocam no Golfo Pérsico. Onde atualmente está situado o Iraque. Sua organização social foi literalmente responsável pelo mundo como conhecemos hoje. Elementos que influenciaram na formação das sociedades greco-romanas, que por sua vez influenciaram todo o mundo ocidental e estão fortemente presentes até os dias de hoje.
Os sumérios fundaram as primeiras cidades, dentre elas: Ur, Uruk, Nippur, Eridu, Lagash e Kish, que eram cidades-Estado, onde tinham autonomia política, logo tinham seu próprio chefe político.
DESTAQUE - PATESI
Cada cidade tinha como figura central um Patesi, que era o chefe da família local e concentrava nele as funções da cidade. O Patesi era uma pessoa mais velha (ancião), escolhida pelos anciãos e por hereditariedade, sendo que, centralizava o poder e privilégios das famílias como chefe militar, político e sacerdote.
Essas características atribuídas aos Patesis vão mudar por volta do ano 2.800 a.C., onde se apresenta a primeira mudança política criando o sistema de dinastia em que o poder fica na família, ou seja, usa-se o critério de hereditariedade
ACÁDIA
Acádia foi uma das mais famosas cidades mesopotâmias, cuja riqueza, esplendor e gloriosos soberanos seriam recordados por milênios. Não dispomos até hoje de registro arqueológico da existência da cidade, nem depósitos de fundações, nem arquivos, nem sepulturas, nenhuma seqüência estratificada de entulho, nenhum remanescente arquitetônico, nada de tijolos com inscrições para identificar o local mesmo assim, a realidade de Acádia como a nova capital de um estado fundado por Sargão nunca esteve em dúvida porque o nome da cidade aparece em documentos escritos a partir da segunda metade do terceiro milênio, provenientes de outros sítios arqueológicos mesopotâmios, além das freqüentes referências a Acádia na literatura cuneiforme, em augúrios e títulos régios. Acádia era conhecida como o centro do mais bem-sucedido império jamais visto, o qual se estendia aos quatro cantos do mundo. Tão prestigioso era o seu nome que os reis babilônios intitularam-se "rei de Acádia" até o advento do período persa.
ASSÍRIA
O povo assírio viveu na antiga Mesopotâmia, região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates. Sua capital, nos anos mais prósperos, foi Nínive, numa região que hoje pertence ao Iraque. O Império assírio abrange o período de 1700 a 610 a.C. , mais de mil anos.
Os assírios eram ferozes guerreiros e usavam sua grande força militar para expandir seu Império. Libertando-se dos sumérios, conquistaram grande parte do seu território, mas logo caíram em poder dos babilônios, um povo que morava ao Sul da Mesopotâmia. Em 1240 a.C, empreenderam a conquista da Babilônia, e a partir daí começaram a alargar as fronteiras do seu Império até atingirem o Egito, no norte da África. O Império Assírio conheceu seu período de maior glória e prosperidade durante o reinado de Assurbanipal (até 630 a.C). Cobravam pesados impostos dos povos vencidos, o que os levava a revoltarem-se continuamente.
Ainda no reinado de Assurbanipal, já os babilônios se libertaram (em 626 a.C.) e capturaram Ninive. Com a morte de Assurbanipal, a decadência do Império Assírio se acentuou, e em 610 a.C. a última de suas cidades caiu em poder dos invasores.
A escrita dos assírios constituía-se de pequenas cunhas feitas com um estilete em tabuletas de argila — é a chamada escrita cuneiforme (que como vimos foi usada por várias outras civilizações até o desenvolvimento da Escrita Fenícia). Descobriram-se milhares de tabule¬tas na biblioteca de Assurbanipal em Ninive, conhecendo-se grande parte da história do Império Assírio a partir de sua leitura.
Os palácios de Nínive são cobertos de es¬culturas em baixo-relevo, representando cenas de batalha e da vida dos assírios. Também por eles sabemos muito da história desse grande Império do passado
destaque
Este povo destacou-se pela organização e desenvolvimento de uma cultura militar. Encaravam a guerra como uma das principais formas de conquistar poder e desenvolver a sociedade. Eram extremamente cruéis com os povos inimigos que conquistavam. Impunham aos vencidos, castigos e crueldades como uma forma de manter respeito e espalhar o medo entre os outros povos. Com estas atitudes, tiveram que enfrentar uma série de revoltas populares nas regiões que conquistavam.
BABILÔNICOS / PRIMEIRO IMPÉRIO
O Império da Babilónia, que teve um papel significativo na história da Mesopotâmia, foi provavelmente fundado em 1950a.C. Por volta de 1900 a.C., um novo processo de invasão territorial dizimou a dominação dos sumérios e acádios na região mesopotâmica. Dessa vez, os amoritas, povo oriundo da região sul do deserto árabe, fundaram uma nova civilização que tinha a Babilônia como sua cidade principal. Somente no século XVIII o rei babilônico Hamurábi conseguiu pacificar a região e instituir o Primeiro Império Babilônico.
Destaque
Além de promover a unificação dos territórios mesopotâmicos, o rei Hamurábi também foi imprescindível na elaboração do mais antigo código de leis escrito do mundo. O chamado Código de Hamurábi era conhecido por seus vários artigos que tratavam de crimes domésticos, comerciais, o direito de herança, falsas acusações e preservação das propriedades
O povo babilônico era muito avançado para a sua época, demonstrando grandes conhecimentos em arquitetura, agricultura, astronomia e direito. Iniciou sua era de império sob o amorita Hamurabi, por volta de 1730 a.C., e manteve-se assim por pouco mais de mil anos. Hamurabi foi o primeiro rei conhecido a codificar leis, utilizando no caso, a escrita cuneiforme, escrevendo suas leis em tábuas de barro cozido, o que preservou muitos destes textos até ao presente. Daí, descobriu-se que a cultura babilônica influenciou em muitos aspectos a cultura moderna, como a divisão do dia em 24 horas, da hora em 60 minutos e daí por diante.
FENÍCIA
Os fenícios eram povos de origem semita. Por volta de 3000 a.C., estabeleceram-se numa estreita faixa de terra com cerca de 35 km de largura, situada entre as montanhas do Líbano e o mar Mediterrâneo. Com 200 km de extensão, corresponde a maior parte do litoral do atual Líbano e uma pequena parte da Síria
Por de habitarem em uma região montanhosa, com poucas terras férteis, os fenícios dedicaram-se à pesca e ao comércio marítimo.
As Cidades Fenícias
Era, um conjunto de Cidades-Estado, independentes entre si. Algumas adotavam a Monarquia Hereditária; outras eram governadas por um Conselho de Anciãos. As cidades fenícias disputavam entre si e com outros povos, o controle das principais rotas do comércio marítimo, duas entretanto se destacavam Siddon e Tiro.
ECONOMIA
A economia dos fenícios desde cedo evoluiu da pesca e da agricultura para uma economia mercantil, pois as escassas terras férteis da Fenícia não permitiam uma produção agrícola capaz de atender às necessidades da população. O comércio marítimo, como já mencionamos, foi sua principal atividade econômica e seu progresso transformou os fenícios nos maiores navegadores da Antigüidade. Suas rotas comerciais marítimas se estenderam por todo o mar mediterrâneo.
Tanto ou mais importante que saber que foram os fenícios a desenvolverem o alfabeto, precisamos entender qual o objetivo disto. O que levou-os a criarem o alfabeto foi justamente a necessidade de controlar e facilitar o comércio. O alfabeto fenício possuía 22 letras, apenas consoantes, e era, portanto, muito mais simples do que a escrita cuneiforme e a hieroglífica. O alfabeto fenício serviu de base para o alfabeto grego. Este deu origem ao alfabeto latino, que, por sua vez, gerou o alfabeto atualmente utilizado no Brasil (vemos ai uma relação estreita entre a cultura fenícia e todas as culturas mundiais – vale lembrar que a escrita é uma importante e poderosa ferramenta de difusão cultural).
BABILÔNIA – SEGUNDO IMPÉRIO
Os caldeus, povos de origem semita, derrotaram os assírios e fizeram da Babilônia novamente a capital da Mesopotâmia.
Assim nasceu o Império Neobabilônico, mais grandioso que o de Hamurábi, e mais de mil anos depois.
Durante o reinado de Nabucodonosor (604 a.C. – 561 a.C.), o Segundo Império Babilônico viveu o seu apogeu.
Foi a época das grandes construções públicas, como os templos para vários deuses, especialmente o de Marduk, as grandes muralhas da cidade e os palácios, a exemplo dos "Jardins Suspensos da Babilônia", considerados pelos gregos como uma das maiores "maravilhas do mundo".
Nabucodonosor também expandiu seu império, dominando boa parte da Fenícia, Síria e Palestina, e escravizando os habitantes do reino de Judá (Esdras, 20-1), que foram transferidos como escravos para a capital ("Cativeiro da Babilônia").
O Segundo Império Babilônico não sobreviveu por muito tempo à morte de Nabucodonosor, sendo conquistado em 539 a.C. pelo rei persa Ciro I.
A partir daí, a Mesopotâmia e seus domínios passaram a pertencer ao Império Persa.
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